é bom pra quem gosta

porque precisar, não precisa.

(às minhas amigas de facebook)

décadas atrás: eu pequena, com as primas e uma criançada, querendo brincar na pracinha em frente ao restaurante enquanto os adultos chatos bebiam e conversavam longamente. já escurecia e as tias não podiam deixar a meninada sair do alcance dos olhos. os tios jantavam e nem tomavam conhecimento do drama das crianças entediadas sonhando com a pracinha toda lá fora esperando por elas; era com a autoridade das tias que dialogávamos. uma fulana sai com a seguinte história pra encerrar a pedição das meninas: Tá vendo as árvores na pracinha? Pois tem um tarado à solta aqui que se esconde nas árvores, quando a menina passa embaixo ele pega, não pode ir que o tarado tá lá, só esperando.

contada apenas para servir ao propósito do momento – convencer a meninada a desistir de sair do restaurante, explicar porque tínhamos que ficar na mesa sendo que a pracinha tava ali tão pertinho tão convidativa -, a história do tarado sobreviveu àquela noite e entrou no imaginário das primas. também durante o dia, sempre que brincávamos naquele bairro, e depois em outros bairros também, às vezes olhávamos para as copas das árvores sérias e nos perguntávamos sobre onde estaria o tarado da árvore. Será que conseguiram prender?

pra mim, a história do tarado da árvore foi uma dentre muitas, mais ou menos elaboradas, que se somavam para inculcar o terror de estar exposta à uma ameaça anônima, dispersa, difusa, sorrateira e constante, me ensinando que eu, sendo garota, carregava sempre comigo algo de valioso que em qualquer esquina podem tentar me roubar, quebrar, violar. o que exatamente era tão valioso não era explicitado – minha dignidade, talvez, meu conforto, minha honra, minha virgindade, minha integridade corporal? – mas era algo precioso que perder seria uma tragédia, e era meu dever preservar, me preservar. então trate de calcular seus passos e prestar atenção.  A gente quando é criança vai aprendendo o mundo e seus preconceitos de muitos jeitos e de jeitos muito particulares, e eu aprendi que o que era tão valioso em mim, que perder seria cair do abismo, era de alguma forma o motivo pelo qual a família, os adultos, me amavam; ser obediente e boazinha significava também “me preservar”.

eu precisei crescer muito, por assim dizer, pra entender que esse mundo no qual os meninos brincam livres enquanto as meninas têm sua liberdade cerceada em nome de uma violência potencial anônima e múltipla, esse é um mundo machista, e não é o único possível pra mim. e que de certa forma cabe a mim sim me proteger, criando e mantendo outras expectativas de realidade, a fim de viver plenamente. que essa ameaça é já uma violência opressora, uma peça-chave nessa engrenagem de constrangimento e coerção que restringe a vida que eu chamo aqui de machismo. essa é a semente de uma vida regada pelo medo, da vida nas bordas da vida.

o que me salvou foi o feminismo. mas não esse feminismo que se populariza pelas mídias, imediato e intuitivo; um mais problemático, crítico desse feminismo instantâneo – um que busca elaborar o problema e entendê-lo racional, articuladamente. não estou, com isso, desmerecendo outras formas de entendimento, outras formas de linguagem. o que quero dizer enfim é que, se você, pra ser feminista, precisa convencer as mulheres de que elas estão em perigo, seu feminismo fracassou na largada. você não vai ser parte da solução, mas pode ser parte do problema.

tem outros problemas no discurso vitimizante, além dessa criação-perpetuação da vitimização. legitimar a pessoa que sofre violência e atentar à violência que ela sofre não só não implica em legitimar seu lugar de vítima, como implica o contrário disso – em desprender a sua pessoalidade do âmbito da vítima, em justamente reconhecer que ela se define como pessoa para além da violência que ela sofre. o curioso é que é um conceito até que simples e bem difundido, o de que a opressão imprime à minoria uma certa invisibilidade; mas algo que não se vê com a mesma frequência ou clareza é que isso implica que, quando o discurso feminista fala, não pode falar em nome da mulher. ninguém pode falar em nome de ninguém mais – não se o que se quer é pensar a discriminação. além de ser autoritário e possivelmente falso, isso sufoca a voz do outro – ou seja; é justamente o que queremos combater. não me venha falar por mim, tampouco me venha falar aos homens enquanto mulher. grata.

é que uns dias atrás foi o dia internacional da violência contra as mulheres e, como há de ser, choveu pataquada nas redes sociais sobre essas “pobre coitadas” que têm ao lado um desses “monstros” sem coração. eu espero de qualquer um que se declare feminista que entenda que o buraco é mais embaixo, e espero dos meus amigos de rede social, todos eles, que pensem duas vezes antes de compartilhar bosta que meu coração é fraco, gente, e esse é meu calcanhar de aquiles.

fico puta com essas coisas.

oi, prazer

uma vez um cara metido a saber das coisas, e sabia de mesmo de muito embora como todos sabemos ninguém pode saber de tudo, me disse que gente criativa não precisa de vida sexual ativa. eu acho que as pessoas podem ser supersticiosas e preconceituosas e ainda mais quando a sexualidade está no meio, adoramos falsas associações aleatórias, e até onde eu sei freud nunca explicou direito a sublimação, deixei quieto. isso faz tempo mas eu hoje vim escrever algo – por que não tirar a poeira do blog, né mesmo – e me distraí vendo putaria na internet ao invés, e a lembrança dessa fala me fez coceguinha. conheci gente que não tem “vida sexual ativa” mesmo que não seja proibida de transar, quer dizer, mesmo podendo ter; eu quando era mais jovem me assombrava com como alguém pode escolher o celibato, que me parece morte em vida, mas o tempo ensina a gente que as pessoas são diferentes e ok, e com o tempo conheci gente que passa longos períodos da vida assim, só, sem se relacionar com alguém romanticamente e sem ter que trepar sempre por aí. é legal ser ou estar só, mas tem seu lado desgastante pra quem precisa trepar frequentemente, porque tem um povo que tende a se envolver com quem se trepa, e a assumir que vai trepar mais vezes ou no mínimo que pode querer trepar mais vezes e pedir e insistir por isso. até em chat online o padrão é esse, sempre tem o povo querendo sacanagem, e quando eles encontram alguém que também quer sacanagem, eles querem mais sacanagem, querem sacanagem constante, o amor pela sacanagem parece que logo vira amor pela pessoa que possibilita a sacanagem e logo eles estão querendo te apresentar pra mãe. ou algo que o valha, você entendeu. o que eu estou dizendo é que pode ser desgastante você estar sempre procurando gente nova e boa pra trepar e ao mesmo tempo lidando com quem você já trepou que quer mais, que foram bons o suficiente pra trepar e você não quer que se sintam descartados, afinal de contas a ideia nunca foi descartar ninguém, apenas curtir numa boa, nem toda boa trepada tem que prometer a próxima, a camisinha já foi inventada graçasàdeus. carente e monogâmica, essa sociedade; talvez as pessoas devessem ser mais afetuosas e mais desapegadas, assim todos se amavam mais, precisariam menos de amor e confundiriam menos o amor à trepada com o amor à pessoa que a possibilita. todos gostam – ok, a maioria – de punhetar, mas trepar é sempre – ok, quase – mais gostoso; mas trepar requer curtir o corpo do outro, não só o próprio, e curtir o corpo do outro indica curtir o outro, mas nisso você se confronta com as pessoas que depois que têm seu corpo curtido se sentem de alguma forma rejeitadas se você não tem interesse maior pela sua pessoa para além dos centímetros de pele e matéria e reações que você curtiu naqueles minutos. mais afeto, pra curtirmos os outros, mais desapego, pra curtirmos sem achar que o que curtirmos é coisa que temos que manter pra não perder, pra curtirmos plenamente, sem a ameaça da perda; um curtir cheio, que não se deixa assombrar pelo seu próprio limite, sem medo.

temos um velho vício na dinâmica entre os sexos que assume certa cafajestagem nos homens que querem se desfazer de qualquer contato com uma mulher uma vez que eles tenham trepado com ela, o clichê do cara imoral que não “liga no dia seguinte”; o lado feminino do clichê é que mulher só gosta de sexo pelas oportunidades que ele traz, seja quais forem, de atenção e carinho a favores de todo o tipo. de ambos os lados há a pressuposição de que se a transa foi boa haverá o desejo da repetição. ué, trepar é bom por definição, considerando que quando a gente trepa, é porque quer, e quando se quer trepar e trepa, há de ser bom; ainda que nem toda transa vai chacoalhar a terra ou ficar gravada na nossa memória pra sempre – os cientistas que falem de hormônios e reações químicas, mas há um impacto positivo na vida, que, por mundano que seja, não pode ser sempre ligado ao bem-estar de, por assim dizer, “ter alguém ao seu lado”; a transa pode se bastar, pode ser um fim em si mesma. pra quem gosta de trepar e quer trepar, trepar é bom e pronto, ainda que outras vantagens ultrapassem a mera trepada. por motivos diferentes, tanto homens quanto mulheres podem encontrar alguma aspereza no mundo ao simplesmente curtir uma transa por uma transa, como se fosse algo normal e cotidiano, sem estar envolvidos com o/a/s participante da transa. meu coração não entende pessoas que vivem por longos períodos sem sexo, mas, nesse mundo em que vivemos, parece estar mais de acordo com a lógica das relações humanas, que só o autorizam dentro de um certo quadro específico. mas um mundo que desiste de cobrar daquele que quer trepar que, digamos, “pague o preço”, lida melhor com as pessoas que decidem viver sem fazer parte de um casal monogâmico hetero quer elas tenham vida sexual “ativa” ou não, porque se trata de manter uma atitude não prescritiva com a sexualidade. mas escrevo só pra gastar o verbo mesmo, não pra panfletar, minhas energias panfletárias eu já gastei todas. eu devia é ter perguntado pro cara o que o cu tem a ver com as cal-, digo, com a criatividade.

depois falam que não sou romântica

muito, muito tempo atrás, semanas, meses, nem sei mais, eu almoçava num restaurante gostoso quando percebi um cara mais gostoso ainda se sentando na mesa ao lado da minha, na cadeira que dava de frente pra mim e pra parede avermelhada que estava logo atrás de mim. sozinho na mesa, falava ao celular; cinquentão de belo porte, olhos vivos, convidativos, acho que já tinha me percebido antes mesmo que eu o percebesse, e eu sou bem esperta pra perceber belos cinquentões nos meus arredores. eu estava num almoço de trabalho com duas pessoas de trabalho bancando a trabalhadora, e por isso só sorri discretamente quando ele falou alguma piadinha engraçadinha para o celular olhando pra mim e parecendo despretensiosamente aberto à minha cumplicidade; estávamos nos entendendo ali, eu achei, e meu almoço ainda começava. mas ele nem comeu muito, só o vi tomar uma cervejinha, logo se levantou e foi pagar a conta no caixa, enquanto eu quieta-inquieta me dava conta de que nenhum dos meus planos mirabolantes que me ocorriam ali pra dar a ele meu cartão de visitas meu email meu telefone sem que ninguém mais percebesse me parecia ainda bom o suficiente para ser posto em execução. mas no seu caminho ao caixa ele pôde olhar pra mim mais demoradamente, e sorrir, e dar uma piscadela. sorriso e piscadela descompromissados, leves, pedindo nada – coisa de poucos segundos, mas que segundos mais ricos aqueles, com aquele sorriso e aquela piscadela melhores que muito beijo, e olha que beijo todo o mundo sabe o bom que é. eu pude retribuir muito discretamente, um olho no peixe outro no gato, quero dizer, nos dois figuras sentados na minha mesa, que distraídos que estavam não faziam nem ideia da minha paquerinha – o que eu sei dizer porque aquela gente sentada ali na minha mesa não teria a finura de, percebendo qualquer coisa, fingir que não percebe para não encher o saco com assuntos que não lhe dizem respeito; gente do trabalho com quem a gente almoça porque precisa e não porque escolhe, não porque um sorriso e/ou uma piscadela levaram a uma vontade e um convite felizmente aceito. e o cara gostoso foi embora assim mesmo, sem dar chances muito maiores do que o acaso já dá, e afinal parte do seu charme paradoxalmente se devia à despretensão de quem foi tomar uma cervejinha boa sem esperar nada de ninguém; as melhores refeições são de quem não está faminto e sabe que pode comer não por precisar mas apenas pela vontade e pelo desfrute. sorriso e piscadela, e aquele virou meu restaurante favorito, e aquele virou meu dia favorito, e eu de vez em quando ainda sonho acordada em encontrar esse cara gostoso de novo, que eu tenho certeza que a essa altura meus sonhos e desejos já embelezaram e perfumaram de maneira tal que se eu o encontrasse na rua possível que nem reconhecesse, ou melhor ainda, reconheceria só pelo perfume que eu atribuí ao olhar vivo dele, pouco importa se o mesmo gostoso ou um outro, de belo porte e boa disposição. depois dizem que eu não sou romântica, mas só um tonto pra não perceber o romantismo que pode haver em um boquete surpresa furtivo no banheiro em um dia de semana. quem dera.

gisele de hope

alguns queridos me pediram pra falar sobre a propaganda de lingerie da hope com a gisele bundchen de calcinha, e a tentativa de censurá-la por parte de algumas que se sentiram ofendidas pela propaganda alegando machismo. como o que me interessa são as análises e críticas, vejamos o que foi dito:

Para Aparecida Gonçalves, Secretária Nacional de Combate à Violência contra a Mulher, o problema da peça publicitária “não é Gisele Bündchen, nem a lingerie, mas é a questão que está por trás disso. É passar uma imagem errônea da mulher brasileira, que não é submissa, é consumidora, moderna e até presidente“, diz. “Agora, se fosse num jantar à luz de velas, o charme e a lingerie até se justificariam“, afirma. Aparecida diz se sentir ofendida pela propaganda, já que, como ela própria descreve, “é baixa, gorda e índia” e não se vê representada na peça publicitária. Ela afirma que o objetivo da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) é questionar que tipo de imagem da mulher brasileira está sendo criado.

e na fala da ministra iriny lopes, também da spm:

No nosso juízo havia uma característica sexista na propaganda, de coisificação da mulher. Havia uma ideia de que, para conter a violência do companheiro, era necessária a erotização. De fato, elas devem ser bonitas, lindas, desejadas, assim como eles para elas. Mas não com esse tipo de brincadeira, que perpetua a ideia da mulher-objeto. (…)  não há ressentimento algum, e sim uma cultura de igualdade, de contestação ao status quo no qual a mulher é vista como um ser subalterno. (…) Havia uma mensagem subliminar quando era mostrado um carimbo dizendo que dar o recado com roupa era errado. Qual é a intenção ao mostrar isso? É essa coisa da mulher-objeto, que para manter uma relação precisa de um nível de erotismo. (…) Nossa visão em relação à publicidade não é moralista.

a propaganda mostra gisele contando uma notícia chata para um namorado ou marido de roupa, e depois a mesma notícia só de lingerie; o fato de ela estar só de lingerie nesse momento salta mais aos olhos do que a notícia que ela dá, o bom da lingerie nela se sobressai e o ruim da notícia fica minimizado, a propaganda diz que esse é o jeito certo de dar a notícia. um narrador diz: “você é brasileira, use seu charme. hope, bonita por natureza.” aparece escrito hope com esse slogan embaixo com a sombra da gisele atravessando de um lado a outro da tela com seu famoso andar milionário. fim. ah, as notícias ruins que a gisele dá são acerca de rombos no cartão de crédito, batida de carro e sogra vindo morar junto com o casal (essa meu marido teria que dizer peladão com uma maçã na boca e uma ereção power).

a mensagem de que mulher com menos roupa é algo agradável está longe de ser uma invenção ou exclusividade dessa peça publicitária; a ideia de que mulher com menos roupa é ruim ou ofensivo e deve ser censurado, no entanto, também está longe de ser uma invenção ou exclusividade de um certo feminismo. mas permita-me debruçar um pouco na fala da secretária sem atalhos: para justificar ter se ofendido, ela diz que ela é baixa, gorda e índia. essa justificativa, mal elaborada e dada a toque de caixa, não é boa; ela fala de si mesma, não da propaganda. estamos discutindo o problema da propaganda ou da aparecida gonçalves? note que é na fala dela própria que ser baixa, gorda e índia aparece como algo problemático. e quem não tem essas características não se ofende? gisele é brasileira, e é um orgulho nacional por ser uma das modelos mais bem sucedidas do mundo. a hope precisa vender lingerie; houvesse uma gisele baixa gorda e índia, a hope poderia chamá-la para gravar a propaganda, mas não há, e não só não é nem intenção nem função da hope criar uma, não lhe é possível. a tarefa de expor e questionar os padrões de beleza naquilo que eles têm de racista e problemáticos é tarefa de intelectuais, das feministas, quisera eu que da SPM também, mas não de marca de calcinha.

mas então se na propaganda a mulher de calcinha invés da gisele fosse uma índia baixa e gorda, seria ok? não sabemos, mas sabemos que a exposição do corpo esbelto de gisele em seu “charme e lingerie” seria perdoada “se fosse num jantar à luz de velas”. jantar à luz de velas, gente. dá pra escrever um livro inteiro pra justificar porque essa fala se respalda em uma lógica machista e nociva: só homem gosta de sexo, mulher gosta do que se recebe em troca do sexo, e tem que barganhar o que tem em troca do que puder, dinheiro joias casamento status atenção carinho… no sexo pelo sexo, a mulher fica em desvantagem. já falei demais aqui sobre como essa lógica inclusive promove e banaliza estupros. outra coisa que já falei demais é que é preciso cuidado para dar um relato do machismo sem congelar seus termos, que a leitura machista de mundo não pode esgotá-lo. a ideia de “mulher-objeto” costuma aparecer como um conceito pronto, fácil, jogado, e nunca é suficientemente explicado de que maneira a mulher fica objeto e porque isso é ruim e machista e não deve ser feito. é a calcinha que faz da mulher um objeto? é o fato de ela se exibir fora do âmbito privado do quarto? o que faz da gisele sulbalterna aqui? é como se houvesse uma relação automática e incontornável entre mulher (bonita) de calcinha, sua apreciação (por homens), e uma posição submissa e desfavorável da mulher. o ato de se carimbar no corpo da mulher vergonha, fragilidade, submissão, oferta, enfim, isso é trabalho do olhar sobre o corpo, que parte de fora e se imprime sobre ele, por mais que o faça convicto de que o corpo que emite os valores que lhe são atribuidos, por mais que o faça se passando por mera leitura de um fato dado. muito está em jogo na construção e nas possibilidades de um olhar, na inteligibilidade que lhe convém, nas dinâmicas que o embasam e nas que se desencadeiam a partir dele. eu insisto que não se pode recusar um preconceito sem abertura para leituras e olhares mais amigáveis, seu reconhecimento e promoção; em que repetir acriticamente as regras mais amplamente propagadas do jogo sexual – regras que feministas concordam não serem suficientemente igualitárias – colabora para a riqueza dos nossos jogos?

o que está na propaganda é que quando a gisele de lingerie dá notícia ruim seu impacto ruim é menor, que, de lingerie, a gisele é mais adorável pro seu parceiro, que há então no quadro outras coisas, boas, além da notícia ruim, coisas que distraem a atenção. nada até aqui me ofende, enquanto mulher. a inferência a partir daí de que a gisele está barganhando com seu corpo, usando a erotização para “conter a violência do companheiro“, é contingente, e mais que isso, só se justifica mediante a pressuposição de um companheiro violento, o que a propaganda por si não traz em momento algum. eu tenho dificuldade em entender como um feminismo que insiste no machismo e violência contra a mulher como o padrão, que insiste em pressupô-los em toda a parte, trabalha para promover um mundo livre de machismo e violência contra a mulher.

fica evidente uma afinidade com o pensamento – perigoso e muito presente embora raramente explicitamente elaborado – de que a mulher, seu corpo, sua exposição, sua beleza, deve ser do âmbito privado, de que sua sexualidade deve ser resguardada (por ser propriedade de algum homem, como alguns desenvolveriam o raciocínio). a ideia de que a mulher pertence ao âmbito doméstico inclusive não se distancia da de que a mulher está sempre vinculada, e portanto limitada, à sexualidade – que é uma que, essa sim, claramente incomoda aqueles que não gostaram da propaganda da hope; mas qualquer crítica à essa propaganda que se baseie nesse argumento enfrentaria o obstáculo de que se trata aqui de uma propaganda de lingerie, e estamos sim no âmbito da sexualidade. essa ideia é ruim porque limita a mulher à esfera da sexualidade, e enquanto pessoas temos atuações em outros campos também que não necessariamente pertencem e dialogam com a sexualidade; mas não porque o âmbito da sexualidade seja ruim em si e por si e deva ser sempre negado e repudiado. no discurso de fanáticos religiosos inflamados esse modo de ver parece distante, mas permeia nosso discurso cotidiano mais do que gostaríamos de admitir; quantas vezes, quando se fala no bem-estar das mulheres, em mantê-las mais seguras, não se confia em uma poda da sexualidade feminina como solução? oras, não há erotismo na minha relação com algumas pessoas, como meus pais, meu chefe, alguns amigos – mas por que seria ruim contar com o fato de que uma relação com o meu companheiro requer “um nível de erotismo”? erotismo é ruim sempre, em si e por si – se dá sempre contra a mulher? ou apenas em um contexto em que os motivos que ela teria para curtir uma transa seriam sempre externos a ela – como, digamos, um jantar à luz de velas? quem objetifica a mulher afinal, senão aquele que é incapaz de enxergar nela qualquer desejo, que vê nela apenas o corpo no qual os desejos alheios são impressos?

por fim, ainda mais um ponto: o feminismo que eu gosto não acredita em hipótese alguma na censura como solução, porque, além de não acreditar que tentar calar os preconceitos seja uma boa estratégia para evitá-los, acredita que os critérios e razões para censurar são sempre questionáveis, que o discurso do poder censurador, independentemente de a quem ele seja dado, está igualmente sujeito aos preconceitos que  se quer calar, que, imbricados que estão na linguagem, estão sempre se repetindo e ressurgindo. eu acredito, sim, no exercício da crítica refletida. declarações de que me ofendi porque sou baixa e gorda alimentam piadinhas clichês sobre mulheres invejosas e ressentidas; acredito que momentos em que o debate público se abre a essas questões são chances valiosas para manifestações tais como da SPM oficialmente, como uma carta aberta assinada, por exemplo, discutindo as razões pelas quais considera que o humor da propaganda da hope está na contramão da promoção da igualdade de gêneros.

sobre o mesmo assunto, mas com sacadas absolutamente geniais, apontamentos diferentes, e escrita fluente, minha blogueira favorita e grande ídola tem um post fodástico; clica e vai lá ler.

fazendo a scarlett

o primeiro filme que o sylvester stallone fez foi um soft porn vagabundo. ele tava na maior pindaíba e ganhou uma merreca que o ajudou bastante, na época (não assisti ainda, parece que ele só aparece e nem come ninguém). ainda na década de 70, a produtora ofereceu a ele que pagasse pro filme não ser lançado, tipo a xuxa com o filme em que ela banca a pedófila; pediram uma nota. ele disse: eu não pago nem dois dólares por essa porcaria. então resolveram exibi-lo em sessões exclusiva de cinema, cobrando 10 mil; a respeito disso, ele disse: Caramba, por 10 mil, eu vou lá pessoalmente!

essa semana, como todo o mundo sabe, vazou na internet umas fotinhas privadas da scarlett johansson. julguem por si mesmos; as fotos, que parecem tiradas casualmente sem grandes cuidados, são dignas de uma das mulheres mais lindas e sexyes que já pisaram nesse mundo. a pose do auto-retrato de rosto com a bundinha no espelho já foi consagrada e seu nome virou o verbo, scarlettjohanssoning: você pode fazer a marilyn monroe e segurar o vestido branco contra o vento, você pode fazer a jessica rabbit e cantar de vestido vermelho puxando a gravata de um cara, e agora você pode fazer a scarlett no espelho do seu banheiro com a câmera do seu celular.

pois a própria scarlett johansson não curtiu a história e botou o FBI pra cuidar do caso – e pipocaram textos dramáticos de webfeministas americanas tentando conscientizar as pessoas do quão terrível é a situação; àquelas que se comparam com a scarlett em sua dor de quem também um dia já teve fotos privadas vazadas na internet e conhece a dor lancinante de ter sua intimidade invadida, a resposta mais evidente é que scarlett johansson, afinal de contas, é uma figura pública, e mais que isso, uma atriz, que trabalha com o corpo e com a imagem, cuja beleza é celebrada desde muito antes dessas belas fotos vazarem; sua fama, sua grana, sua carreira, seu status, seu nome, sua arte, nada disso pode ser separado de certos atributos que são imediatamente identificáveis nas fotos que vazaram, e a gente ainda precisa comer muito feijão pra se comparar a ela, na alegria ou na tristeza.

mas há aqui um aspecto recorrente na cultura americana, que aparece também no fenômeno do “bullying”: se um problema do bullying, certamente o mais comentado, é o impacto torturante que ele tem em sua vítima, está claro que reconhecer e validar a postura da vítima é fundamental para ajudá-la, individualmente. mas em maior escala, lamentar a condição da vítima do bullying tem o efeito contrário de validar, por sua vez, a posição de poder daquele que o inflige – figura em geral anônima e difusa, apoiada em toda uma racionalidade que o privilegia e enfraquece a vítima por seja lá qual for seu “defeito” em questão; a vítima é figura central e sempre específica. quer chatear alguém de quem você não gosta? o bullying é uma maneira fácil, grátis, rápida e eficientíssima, segundo o que eu aprendi numa matéria do jornal sobre o novo terror dos colégios.

há uma crítica espirituosa na música do andré abujamra e zeca baleiro, lexotan, desse tipo de postura dramática. ela parece perder a força frente à notícias como a morte do garoto de 14 anos que é o mais recente caso de suicídio de um adolescente gay americano vítima de bullying homófobo. ao saber que o garoto havia ele mesmo gravado um vídeo para a campanha “it gets better” de prevenção desse tipo de suicídio que virou um fenômeno nos eua – e podemos incluir na lista uma bela garota de 13 anos, hope, que se matou em 2009 depois que a tornaram a “vadia” da escola por conta de um sms que ela mandou pro garoto de quem gostava pagando peitinho –, nos perguntamos como então prevenir tais eventos. Por que a mensagem positiva da campanha não bastou nesse caso? o que mais pode ser feito, amplamente, para prevenir esse tipo de suicídio, esse tipo de sofrimento?

assim como o garoto não se matou porque era gay, mas porque não conseguia viver em paz em um meio tão homofóbico, devia estar claro que o motivo do suicídio da garota não foi sua sexualidade, não foi “seu erro” de ter enviado o sms sensual a um moleque, mas porque ela não conseguia viver em paz em um meio tão machista. As notícias de sua morte parecem confirmar que ela estava, em larga medida, certa em não ter comentado nada sobre o caso com os “adultos”, pois insistem em ligar o suicídio ao sms enviado e às tecnologias modernas disponíveis à menina que tomou uma decisão ruim, invés de ligá-lo ao comportamento agressivo dos colegas que a ridicularizavam. Então, em primeiro plano e mais evidentemente, o que deve ser feito a fim de prevenir esse tipo de tragédia é expor a inteligibilidade preconceituosa que a sustenta, como é a proposta do It gets better: é possível ser gay e ser feliz (e por óbvio que seja, no caso da Hope ainda engatinhamos, como sabemos; meninas ainda são ensinadas e cobradas a terem discrição e recato, até mesmo por quem lamenta a sua morte trágica, até mesmo em meios supostamente críticos).

e, sem menosprezar a dificuldade dessa tarefa mais evidente de questionar a racionalidade que apoia o bullying e justifica a vitimização da vítima (é gay e gay não presta, é vadia e vadia não presta), outra maneira de virar o jogo é questionar, mais ainda, a força que ela pode ter; mais que basear-se em falsas premissas e ser portanto mentiroso, o bullying pode ser inócuo desde que simplesmente não encontre respaldo onde mais precisa: na vítima. Melhor dizendo: esse tipo de abordagem dramática e solene, como o das webfeministas que choram a dor da intimidade invadida de scarlett johansson, participa da tendência a atribuir um poder mágico às palavras de ferir, como se falar fosse fazer acontecer: mas, por mais que o senso comum confunda a ambos e atrele o ato à fala, é preciso lembrar que há um intervalo entre eles, que o caráter profético de palavras como “você é uma aberração e deve morrer” – repetidamente ditas ao garoto suicida – não é necessário.

aqui, de certa forma, retornamos ao clima zombeteiro daquela música do abujamra, que diz que é mais fácil ser triste que alegre. Claro que a vítima não é inteiramente senhora do seu entorno e não pode, sozinha, criar para si uma alternativa inteiramente nova para a racionalidade que o bullying divulga; é preciso então mostrar que racionalidades alternativas existem – e o próprio ato de apontar o preconceito enquanto preconceito que é já o localiza e frustra suas pretensões universalizantes. E para além disso, cabe ver o mundo com mais leveza, na medida em que se admite não só a existência concomitante de outros modos de ver o mundo, além daquele no qual eu sou gay e gay não presta ou sou vadia e vadias não prestam etc, mas também que esse modo de ver que me desqualifica não é válido o suficiente pra mim, que eu me encontro em posição de poder suficiente para negá-lo, ou, ainda, que o agressor não se encontra em posição de poder suficiente para impô-lo a mim.

não se trata com isso de questionar as particularidades da scarlett johansson ou de cobrar que ela agisse com o bom humor do stallone – cujo gênero lhe dá muita vantagem na hora de dar de ombros frente a esse tipo de exposição. se trata de reconhecer que é possível a nós que façamos a scarlett e sigamos a vida, felizes.

londrinos e londrinos

quando o Estado sanciona violência, se mostrando, em todo o seu poder, cruel e injusto; quando se recusa a reconhecer certos cidadãos enquanto cidadãos, e, mais ainda, quando percebe alguns corpos humanos não como o âmbito da vida humana mas antes como o lugar privilegiado da ameaça à toda a vida que reconhece como humana; quando o Estado impõe violentamente fronteiras imaginárias arbitrárias, empurrando para fora do direito à existência aqueles que busca externalizar, quando sua paranoia lhe permite eliminar minorias como a maneira mais natural, única viável, de manter-se enquanto tal; quando, enfim, o Estado, na figura da polícia, se reserva o direito – e mais ainda, e se incumbe do dever – de simplesmente atirar para matar em habitantes de Londres que não sejam brancos ingleses… é o caos. Atribuir, portanto, o início do caos ao momento em o povo saiu saqueando e queimando é insistir na posição cega do soberano acuado, a um tempo fragilizado e destrutivo, que desinformado perpetua um sistema exclusivo de violências.

nos Estados Unidos houve uma série de ataques isolados nos anos 90 a jovens negros por parte da polícia; como em Londres diante do assassinato de Mark Duggan, os policiais impunes agiam com o aval do governo (e de uma população branca que se via ali representada). A palavra em inglês usada na ocasião para descrever a resposta da população minoritária e rechaçada, riots, ressurge agora no contexto de uma Europa xenófoba. Jean Charles, em Londres, pode não ter sido um nome digno de muito luto ou muita nota; mas o modo de ver que imprimiu nele a marca do descaso pela vida não se cura a si mesmo espontaneamente.

vi outro dia a foto de uma placa que pedia à Londres: Calma. Talvez porque então tudo corresse conforme o esperado, esqueceram de pedir calma quando policiais ávidos por sangue de terroristas mataram um brasileiro que ainda não tinha aparecido no enredo – e o enredo seguiu sem punições nem reparações. Confesso, aqui do meu sofá, que parte de mim recebe com algum alívio as demonstrações públicas de que a tendência à maior prontidão e disposição para o luto por prédios antigos do que por vidas humanas não é universal.

mais que calma, peço: que tal se (re)pensar os modos de lidar com questões de segurança pública?

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