eles falam, nós falamos
eu acho censura uma bosta. às vezes, ainda que eu continue achando censura uma bosta, me parece que certas coisas ditas são nocivas – como um discurso racista, machista, homofóbico, que incite o ódio, que justifique discriminação, que seja ele mesmo discriminatório. porque a gente sabe que homofobia, racismo, preconceito enfim, matam; assassinatos (e espancamentos, e suicídios…) acontecem agora mesmo enquanto sentamos na frente do computador, então é coisa séria, porque existem discursos que promovem injustiça social, que tornam vidas miseráveis e dão respaldo pra crimes terríveis. então se coloca a questão: haveria algum momento em que a censura se justificaria? quando? e como resolver isso, se não através da censura? frente à realidade de que alguns discursos tolhem e impedem vidas, qual o melhor modo de lidar com isso?
porque se você percebe o poder das palavras de machucar pessoas, censurar alguns discursos fica sendo questão de proteção à vida, de garantir a segurança pública. são duas instâncias que se sobrepõem: a liberdade de expressão, e estar livre de danos causados por outrém. haveria uma linha entre um e outro, e onde ela se traçaria?
as pessoas que têm simpatia pela censura são de direita e não têm valores em comum comigo ou com as causas que eu defendo. não me reconheço no seu discurso. Uma vez, algumas feministas, que acreditam que pornografia incita ao ódio (!), conseguiram aprovar uma lei censurando pornografia, nos eua; mas essa lei só funcionou contra a comunidade lgbt, proibindo só filmes gays e lésbicos. elas falaram que não era nada disso que tinham em mente, mas efetivamente a lei não ajudou em nada. isso mostra que a teoria delas não contava com uma boa análise da situação.
há quem diga: tem coisa dita que é como um tapa na cara. mas palavras não são tapas, são palavras, e existe um intervalo entre o dizer e o fazer; não se pode assumir sua força negativa como inelutável, fixando seus efeitos nas intenções malévolas de quem as enuncia ou no momento da sua articulação, porque as palavras têm uma temporalidade, uma história, que excedem isso. não se trata de minimizar a dor que elas podem causar, se trata de peceber que o efeito que elas têm é sempre imprevisível, que elas podem ser rearticuladas. a censura conta com a capacidade das palavras em fazer o mal sem que possa haver uma resistência, uma resposta critica, mas essa capacidade é relativa: o problema com o discurso que incita ao ódio não é meramente o que é dito, mas as convenções sociais que ele evoca e que lhe dão respaldo – que não são atreladas a ele de modo imediato. elas têm uma variabilidade. calar a boca do preconceituoso na marra, ainda que fosse algo que pudesse ser feito, não acaba com essas convenções. eu vivo me repetindo, mas é isso: o buraco é mais embaixo. o potencial das palavras de machucar está no seu significado, no seu contexto social, que é historicamente situado e variável, e pode ser reapropriado e rearticulado. então, não combatemos o discurso preconceituoso apenas calando-o, porque ele é parte de uma rede maior de crenças e atribuições de significado que podem, e devem, ser abordadas, desarmadas, deslocadas, subvertidas, re-significadas.
por exemplo assim, ó:
a música é da lily allen; esse vídeo foi feito em colaboração por vários usuários do you tube contra a homofobia, especialmente na internet, e no próprio you tube. ironicamente, na página o vídeo aparece só se você assentir com um oquei cujo botão é precedido pelo aviso: “Segundo a sinalização da comunidade de usuários do YouTube, este vídeo ou grupo pode ter conteúdo impróprio para alguns usuários“. a letra da música está aqui.
Do you, do you really enjoy
Living a life that’s so hateful?
‘Cause there’s a hole where your soul should be
You’re losing control a bit
And it’s really distasteful
Filed under: feminismos, gêneros | 40 Comments
Tags: um post importante
Bom dia Lu!
Eu não gosto da censura. Embora ache que alguns tipo de dilvulgação de idéias devam ser coibidos, os que pregam o ódio e a violência.
Hoje oficialmente não temos censura no país, mas no fundo temos sim. Hoje não se pode criticar nada e nem ninguém, nem ao menos uma piada pode-se fazer direito. Pois qualquer coisinha pode ofender alguém. Parece que todos estão muito sensíveis, que não aguentam uma brincadeira ou uma crítica. Tudo ofende, tudo magoa. Há também uma tendência de máscarar a realidade, hoje não se chama um velho de velho. Ele pode se ofender, mesmo sendo velho! Odeio o termo melhor idade, acho terrível! Melhor em quê? Enfim, as pessoas andam estranhas hoje, nada se pode falar ou dizer. Mas parecem que todos ficam tranquilos pois a censura oficial não existe.
Adorei a letra da música. Não conhecia. Concordo com a música.
Ah, isso me faz lembrar de uma conhecida que parou de falar comigo depois de um dia que ela veio em casa e um amigo meu estava com o namorado aqui. A menina ficou horrorizada. Deu para perceber pelo olhar dela. Nunca mais se aproximou. Melhor para mim. Gente assim prefiro ficar longe.
Beijos
Olha também não tenho discurso de direita, mas censura é necessário, claro. Exatamente nos casos q citou, quando ofende determinados grupos ou pessoas. Mas como julgar isso da maneira mais correta? Impossível né. Quem decide o que ofende? E o qto as pessoas confundem censura ideológica com censura moral. O que é amoral? né, complica. Aqui no rio (de janeiro) vira e mexe a igreja enche o saco com algo que vai sair na avenida durante o caranaval. Se eu julgasse, deixaria tudo e foda-se se Cristo vai aparecer assim ou assado, é arte ue. Não ofende. Mas eles acham q ofende. Dai um dialogo ultra hiper preconceituoso E sem arte alguma é exbido as vezes numa entrevista. Mas dai pode. Sempre vai haver um grupo dominante que consegue defender a sua censura. E outro q, mesmo ofendido, não vai conseguir. Simples assim.
vc discute a censura à incitação ao ódio, mas a letra não tenta combater ódio promovendo mais ódio em troca?
“Fuck you, fuck you very, very much
‘Cause we hate what you do
And we hate your whole crew”
só pra fins de argumentação vou ser cínico e perguntar: “um pode e o outro não?” :)
- marion,
oi! putz, que pessoinha mais ridícula essa. agradeça aos seus amigos que te livraram desse convívio, hehehe. simpática a música, né? fofa. esse vídeo sempre faz sorrir.
– haline,
então, não é claro que censura é necessária. punir crimes é necessário, ameaças devem ser tratadas como ameaças, pedem medidas preventivas, claro. mas até que ponto um discurso falado é crime, e até que ponto a censura é benéfica? é isso que eu discuto no post e que tbm você trouxe no seu argumento: precisa problematizar mais a coisa, senão um discurso vigente estabelecido vai sempre prevalecer e a censura só vai funcionar a favor do hegemônico.
- rodrigot,
você está falando sério?
bom, primeiro quero reiterar que eu sou contra a censura, e no post deixo claro meus motivos, embora sejam ideias relativamente complexas que estão bem resumidas.
mas o discurso que incita ao ódio é o que em inglês eles chamam de “hate speech”. nem esse vídeo, nem essa música, não têm esse discurso; pelo contrário, tem um discurso anti-”hate speech”. falar “fuck you” não te faz um preconceituoso ameaçador que promove o ódio a uma categoria de gente. o fuck you very much brinca com o thank you very much, é uma subversão bem-humorada: nós não precisamos de vocês, seu pensamento é medieval, ninguém precisa da sua opinião, estamos cansados de toda essa aversão que você prega, beijo-não-me-liga. no bilhetinho que a garota segura, está escrito: “fuck you <3″, com um coração depois. enfim, é bem óbvio. o vídeo é afirmativo, que valoriza uma minoria, valoriza vidas como dignas de existir, o que é bem diferente de discriminar uma categoria desfavorecida.
Nossa. Essa é uma das coisas que eu sinto, assim, no meu coraçãozinho mas não falo com muita frequencia. Se todas as pessoas deveriam ter o direito de dizer absolutamente qualquer coisa, por mais agressiva e preconceituosa que seja. Eu sei que corro um risco sério de aproximar essa minha dúvida (que é uma dúvida, e não uma bandeira que eu levanto convicta e orgulhosa, e acho que é seu caso tbm) da mentalidade autoritária. Claro que, num mundo ideal, as pessoas conseguiriam se desprender desses discursos venenosos e não seria necessário furtar a palavra a ninguém.
É um risco, contudo, que eu ponho na balança com o peso que a homofobia, o racismo, o machismo tem. Que, como vc disse, são causadores de infelicidades e tragédias. Em determinados casos, sim, eu já pedi que alguém se calasse porque o que dizia era repugnante pra mim.
O que eu acho mais interessante, como contra-argumento à essa minha verve censuradora, é que faz parte da resistência não utilizar os mesmos mecanismos de opressão do discurso divergente, ou seja, não aderir ao modus operandi do pensamento autoritário para combatê-lo. Nesse caso, acho que o melhor discurso está naqueles materiais irônicos, ou bem humorados, ou fofos, ou inteligentes, ou secos, ou whatever mas que respondem com flexibilidade à dureza e agressividade dos discursos homofóbicos. Como esse vídeo, como aquele do don’t divorce us, etc. Videos que não apenas desafiam uma mentialidade mais tacanha como alargam a capacidade de leitura das pessoas mais atentas.
:**
ps. eu AMEI a música, mas o clip que fizeram ficou hors-concurs, assim, de emocionar mesmo.
pra mim, isso era uma dúvida, até eu ler o debate sobre isso na filosofia contemporânea e ver como os cabeças da atualidade responderam a essa questão, e descobrir a américa nesse departamento aí, rs.
note que tem diferença você pedir a alguém que se cale porque o que está sendo dito te ofende, te é repugnante – fiz isso semana passada mesmo – de instaurar um sistema de censura do governo. quando eu falo que sou contra a censura, penso nessa censura institucionalizada do governo de proibir certas manifestações, certos conteúdos. sou super-hiper a favor de falar com os sem-simancol por aí de que nem todo o mundo é da turma deles, de que eles têm que pensar 2x antes de, por exemplo, se manifestarem contra um determinado grupo como se o grupo deles fosse universal. (primeiro que não temos que aguentar, segundo que pode até ser didático pro(a) joselito(a) em questão. pra aprender que certas coisas são problematizadas, que nem todo o mundo assina embaixo daquilo, que incomoda alguns – porque às vezes o cara nem percebe isso, mesmo, que seria o mais básico.)
enfim, você entendeu tudo e foi no ponto, é bem isso: “o melhor discurso está naqueles materiais irônicos, ou bem humorados, ou fofos, ou inteligentes, ou secos, ou whatever mas que respondem com flexibilidade à dureza e agressividade dos discursos homofóbicos“. exato.
e eu também me emocinei com esse vídeo, demais. fez com que eu inclusive me sentisse melhor sobre mim mesma, e acho que funciona por isso. muita gente deve se sentir assim também…
ah, olha a charge que acabei de publicar: http://ebompraquemgosta.tumblr.com/post/106888195/sexisnottheenemy-facebook-of-course-you-can (no facebook, é permitido negar o holocausto, mas se você botar uma foto de um mamilo de mulher, eles te bloqueiam na hora. inclusive de mãe amamentando e tal. não que eu ache que deva ser probido negar o holocausto também, mas que há uma normatividade na censura.)
beijo beijo!
Eu postei e depois pensei nessa diferença de eu mandar calar e haver uma estrutura, uma instituição que manda calar.
Basicamente, acho que o conservadorismo e os preconceitos não se restringem a uma questão de conteúdo. Mas é uma atitude em relação ao mundo. A pior implicação em dizer que alguém não pode ser gay é menos a crítica à homossexualidade do que esse cerceamento de um traço constitutivo do indivíduo. Se a censura se torna um instrumento comum num governo, então as pessoas entenderão que é possível e aceitável calar o outro, que determinadas pessoas podem não ser ouvidas. Então vale o que eu tinha dito, mesmo, de achar que há práticas de resistencias que ganham pelo conteúdo e pela forma. Porque propoem inclusive outra abordagem em relação ao tema: no caso, a sexualidade. Acho ótimo que haja materiais que usem de irreverência e materiais que usem de seriedade pra fincar o pé com a diversidade sexual, porque amplia as linguagens em que ela se sustenta. Esse clip aliás é algo, nesse sentido, porque as pessoas se apresentam em temas, gestos e símbolos homos, heteros e transsexuais, ele é muito mais globalizante e entusiasta do que restritivo e sectário. Mas tem uma mensagem bem firme, tipo não *pede* nada como pedia o don’t divorce us. Cada elemento do vídeo é um mensagem, e tal.
Mas tem outra coisa: é interessante que o governo não censure manifestações e conteúdos, desde que não sejam explicitamente agressivos e incitem o ódio tipo qq coisa nazi-fascista, mas dê meios de as pessoas reclamarem se sentirem ofendidas. Acho que isso coibe mensagens mais ofensivas e dá espaço praqueles movimentos mais afirmativos, tipo ‘vamos preservar a família’, ‘a vontade de deus é que o homem se case com a mulher’. O maior problema, nesse caso, é que as mídias geralmente dão muito mais espaço pros conteúdos cujos valores são conversadores.
ps, de novo: a imagem é foda.
pois é, tem práticas e convenções sociais que sustentam o precoceito e suas declarações e esses ódios generalizados. a partir disso, se percebe como calar as manifestações do preconceito é inócuo – e mais que isso, calá-las lhes atribui uma força que é justamente o que devemos minar.
(eu não tinha achado o “dont divorce us” lá muito grande coisa, não o compararia com esse vídeo, mas não pensei muito porquê. de novo, aprendo com você, é isso mesmo.)
é interessante isso, porque quase qualquer um pode se manifestar e divulgar seu discurso, e seria impossível patrulhar todos os indivíduos. mas também permite uma resposta, uma proliferaçao de discursos – e a mídia vai perdendo a força, ou o alcance da crítica a ela fica maior. eu de qualquer forma não gosto de atribuir muito poder causal à mídia, porque ela é mais subordinada às estruturas sociais do que o povo costuma perceber. quer dizer, ela é, como todo o discurso, um âmbito de manifestação dessas estruturas, então não dá pra tomá-la como ponto de partida, como um foco do qual emanasse poder, sabe. enfim, sei que você não disse isso, eu já tou desabafando aqui, mesmo, rs.
:*
Parabéns!
Estou com a Aline: “Acho ótimo que haja materiais que usem de irreverência e materiais que usem de seriedade pra fincar o pé com a diversidade sexual, porque amplia as linguagens em que ela se sustenta.”
E o seu texto faz exatamente isso.
Eu sou totalmente contra qualquer tipo de censura, mas acredito que existe diferença entre censurar e entre combater crime. Acho que discursos que incitam racismos, homofobias etc não devem ser vistos como coisas “censuraveis” e sim como crimes e por isso, não podem ser expressados.
(se vc olhar no seu twitter, tem uma re te seguindo, sou eu. fiz um mais “eu”)
O conceito de “incitação ao ódio” é perigoso, pode servir para calar quase tudo. Só deve ser proibido o que é incitacão direta ao uso da violência, sem nenhum outro conteúdo (até porque, neste caso, não haveria expressão a ser protegida). E, sim, os americanos já encontraram as respostas :)
- renam brandão,
é né, a aline foi no ponto.
legal, obrigada pelo comentário, volte sempre :]
– rê,
eba, mais uma amiga adepta do tuíter, legal. tou te seguindo lá, já.
– andre lopes,
isso é. o sistema penal deles faz muita cagada, cada sentença que a gente nem acredita, mas eu só sei disso porque eles mesmos são os seus maiores críticos!
ah, esqueci de um ponto hehe.
tipo, tbm concordo que não é simplesmente calando que vc consegue as condições desses casos, mas eu acho assim: grande parte das pessoas preconceituosas se apoiam na sociedade pra poder “defender” seu ódio. aquela coisa de minorias, de que negros são inferiores, gays não são aceitos na sociedade etc.
Então, eu acho que um ponto importante é que as pessoas preconceituosas sintam (e sejam tratadas) como erradas na história.
Já vi um monte de gente falando essas besteiras defendendo que estão “expressando sua opinião”, “que essa é a cultura da familia” etc.
Essas pessoas continuam tendo seu espaço, enquanto quem é ofendido, tem o seu espaço agredido, aí que eu acho que deveria vir a “censura”
expliquei mto embolado, mas tudo bem hehe
não, explicou bem, sim. eu sem dúvida concordo que é importante que os preconceituosos saibam que eles não podem manifestar seu preconceito, mas acho que proibindo em lei o seu discurso não é o modo pelo qual eles vão ser informados de que seu discurso não é aceitável, sabe. e isso considerando que a censura não seria comprometida com os mesmos preceitos que ela deveria querer “apagar”, coisa que eu já acho que é um dogma político, porque ela participa nessa mesma sociedade que apoia, em algumas instâncias, o discurso que discrimina.
:*
Eu simplesmente adorei o texto, tou até pensando em mandar pra umas pessoas!
que bom, que bom. adoro quando você curte, se você fica muito sem aparecer eu começo a desconfiar daqui, haahaha. eu tava na dúvida se não tinha ficado meio confuso, porque tem muita coisa em poucas linhas – mas também, o vídeo já fala por si ;)
bjim!
O texto não está confuso, eu tenho pensado muito nisso que vc falou. Eu não tou sumida por causa do conteúdo do blog! Adoro aqui, vc sabe.
O vídeo é tudo! MARA! vontade de mandar pra algumas pessoas!
E o texto, como sempre perfeito. Só que tou cansada, acabei de vir da monitoria, e eu trabalhei bastante hj! hahaha amanhã cedo entro aqui e comento direito! Por enquanto tou só lendo os coments!
beijos!
Lu, esse seu post sobre discurso ofensivo (e se este pode ser “evitado” através de uma censura ou não) e como há algo que “corre por trás” que permite e legitimiza seu caráter pejorativo me lembrou um texto muito bom do profº luiz antonio batispta aqui da uff… o link é http://www.slab.uff.br/textos/texto95.pdf
Ele dá aos indíviduos que legitimizam o discurso discriminatório (seja por piadas, brincadeiras de mal gosto ou as famosas “expressão de opinião pessoal’) a alcunha de amoladores de faca – são eles e seu discurso que permitem que um crime de preconceito ocorra, já que há aceitação disso, mesmo que inconsciente, por parte de uma boa parcela da população.
Aproveite a leitura… e mais um ótimo post. Ah, e a música é uma gracinha. A voz dessa menina é um doce, mesmo quando fala palavrões, rs.
Há! É o texto que eu transcrevi outro dia, lembra, Lu? Que vc disse que reconhecia parte do que eu falo nele… Qdo eu li, tbm lembrei desse texto, Ana. Da expressão “amoladores de faca” tbm. Que está na minha cabeça agora por causa do ser Maria Mariana e cuja entrevista eu preferiria não ter lido.
lu,
seu texto é denso… como o assunto. tive inclusive que reler umas partes, mas ele tá muito bem encadeado. esse é um assunto que sempre me assaltou, sabe? e não me lembro de ter nunca discutido isso on, nem offline.
fato é que sempre me pareceram muito estranhas as tentativas de censura oficiais, inclusive as legitimadas ainda hoje por estados democráticos, como a proibição de formação de partidos nazistas na áustria e alemanhã ou mesmo a proibição de uso de “linguagem ofensiva” aqui ou em qquer país. Não porque eu ache que é deveria ser legal (ou ilegal) ser nazista, homofóbico, racista ou anti-qualquer-coisa, mas sim porque em geral, fico com a impressão de que a legislação é feita para colocar limites na expansão do pensamento – claro, como forma de coibir a ação: mas ela tenta justamente na esfera onde ela nunca vai conseguir agir.
de certa forma, ligo isso com a idéia do post da marjorie sobre bater para educar. Não podemos deixar de lado o fato de que os nossos legisladores são os mesmos que cresceram com essa idéia da repressão violenta, que faz, pela força, com que as pessoas guardem seus sentimentos e ações para si ao invés de compartilha-los com o mundo – assim como não podemos negar que certas formas dessa legislação ainda se fazem justificadas, uma vez que abrem o caminho pra opinião pública em assuntos que antes simplesmente não entravam em pauta.
E é aí que a minha incrível capacidade de ser otimista entra: nós estamos vivendo uma época de compartilhar. Da valorização da educação compartilhada com o diferente. E eu acredito muito na idéia da educação através do compartilhamento de experiências – em que você não precisa se forçar a deixar de pensar ou de sentir nada porque é “errado”; basta colocar-se em contato com o mundo com uma visão auto-crítica e fazer a matemática no final de cada dia.
Felizmente, eu vejo a nossa pirâmide etária e enxergo que os legisladores dos mandatos eleitos dentro de 12 a 18 anos serão justamente os garotos que hoje tem 12 a 18 e que estão reinventando a comunicação interpessoal, a criação colaborativa e as formas de relações humanas através da internet. São justamente eles os que estarão participando diretamente da vida política do país até lá. Dá até pra ser mais otimista (!) e dizer que esses moleques tão com 2 carros de vantagem por causa do tamanho da novidade que eles criaram e que ninguém vai conseguir imitar: é preciso nascer (ou se educar) assim.
ps: estou muito, muito feliz de ter conhecido os seus textos, da aline e da marjorie nesse último mês; vocês estão fazendo um nerd um tanto mais feliz com tanto raciocínio compartilhado! :)
ps2: juro que um dia aprendo a arte da concisão…
Eu só sou a favor do controle (eticamente falando) quando são crianças que estão em jogo, pois eles não possuem qualquer tipo de discernimento. Por outro lado, acredito que palavras machucam sim, e muitíssimo!
Também não sou a favor de castrar qualquer tipo de idéia, mas é um assunto complicado…
Até que ponto meu ponto de vista fere sua liberdade? Hum?
Besitos, fofa
- erika,
obrigada. eu sou super a favor de divulgar esse vídeo o máximo possível, manda mesmo pra todos, põe no orkut, no tuíter, sei lá… meu, você tá trabalhando muito nessa monitoria, vai ter férias no meio do ano?
– ana e.,
olha, que coincidência, a aline tinha falado desse texto, ela o adora! tem tudo a ver mesmo. obrigadíssima pelo link que enriquece a discussão. (e eu não gosto de pop, mas cada vez vou ficando mais fã da lily allen!)
– aline,
putz, né, essa maria mariana, como alguém não dá um toque pra ela, sabe? algum amigo próximo, algum parente, sei lá, dá um cutucão e explica, filha, você tá se queimando, não fala merda não, se segura… enfim, uma tristeza mesmo.
– ricardo moraleida,
obrigada pelo comentário – você trouxe um elemento novo; fazer partidos políticos nazistas não são só paravras – ou imagens, no caso de filmes pornôs, enfim, não é só discurso, é ato, está na esfera do agir. então tem que ser coibido. é que nem o caso do adolescente branco que queimou a cruz no lado de fora da casa de uma família negra; isso não deveria ser protegido como “free speech” (como é), porque é uma ameaça: tem uma história de agressões racistas simbolizadas pela cruz que queima, e a família deve ser protegida – ignorar essa história em nome da livre expressão é participar dessas mesmas suposições racistas que se deve combater. do mesmo jeito, é evidente que o partido nazista não tem boas intenções; tem uma história de violência que não pode ser ignorada.
enfim, se de um lado é perigoso ser fatalista, porque se mina a possibilidade de resposta crítica, é perigoso ser muito otimista e minimizar a capacidade violenta dos discursos e a dor que eles podem causar.
– vanessa,
é, é um assunto que dá pano pra manga, com muitas variáveis e tal. eu sou contra a sexualização precoce de crianças, mas quanto aos discursos, acho que é meio irremediável que elas vão ser expostas a racismo, misoginia, homofobia etc.; tem que ensinar o certo também.
beijo!
Não sou a favor da censura. at all.
Acredito inclusive, que as pessoas REALMENTE e infelizmente tem o direito de odiar e se manifestar contra o que confronte seus valores e crenças. Sou totalmente contra qualquer tipo de repressão e não aceito a idéia de que alguma pessoa ou alguma instituição possa tolhir o direito de expressão de outra. Inclusive, acredito que a censura promove as organizações secretas e aumentam as chances do “subversivo” ganhar força. Simplificando: o proibido é mais gostoso.
Por mais utópico que pareça, o ideal seria que existissem formas eficazes de conscientização e por que não, “catequização” dos indivíduos, para que as futuras gerações pudessem nascer já livres de homofobia, racismo, machismo, etc. Mas a maioria das pessoas que estão no poder de efetivar essas ferramentas conscientizadoras jogam contra.
Diante disso, a única coisa que resta são as ferramentas de comunicação. Usar a liberdade de expressão contra a liberdade de expressão. O que eu acho importante e fundamental é que não se use essa liberdade pra chocar. Só pra exemplificar: gente que vai na parada gay unicamente pra promover e curtir a pegação, mostrar o corpo e obcenidades reforça a opinião dos conservadores de que gay é tudo pervertido, doente, sujo (o post anterior é um exemplo dessa opinião).
Nesse ponto, sob o ângulo conservador, acredito que o Don’t Divorce Us (que me fez chorar baldes) é muito mais eficaz e convincente por apresentar familias, sentimentos e situações comuns às famílias hétero. Por reforçar a verossimilhança e o “Somos Todos Iguais”.
Em contraponto, o Big Fat Gay Collab apresenta toda a diversidade do mundo gay. É muito divertido, fofo e me fez rir por horas (de felicidade mesmo!). Mas acredito ter um impacto conscientizador menor.
Pareceu ser bem despretencioso mesmo, no sentido de conversão de valores, tipo “Ah, não gosta? Problema é seu. Faz terapia, aprenda a lidar com isso, eu vou curtir minha vida!”. Inclusive não achei ele contra a homofobia, achei que ele foi mais um apoio aos gays e um desabafo. Bem “Cada um no seu time, não te odeio e não tô te chamando pra brincar, faz o seu que eu faço o meu e me deixa em paz!”.
Infelizmente, tenho certeza que os homófobos de plantão não tem sensibilidade e nem muita coisa pra fazer e vão continuar pegando no pé, lutando contra os direitos pelos quais os gays lutam, etc… De qualquer forma, considero qualquer manifestação contra o preconceito e a favor da minoria válida (desde que não vá contra os propósitos reais e vire um tiro pela culatra), concordo com você, que quanto mas gente se manifestar a respeito, mais vai se discutir e menos força e unânimidade terá o preconceito.
Beijos, beijos beijos!!!
(fiquei doida por um picolé coloridão desses. semana que vem vou comprar um na praia e mandar uma fotinha pra você! <3 )
pra mim também deu mó vontade do picolé!
nossa, por favor, mande a foto sim sim sim.
então, acho que apoio aos gays, essa valorização das vidas gays, é uma forma de lutar contra a homofobia. aliás, acho que é aaa forma, sabe. mostrar como somos iguais é legal também, mas tem que saber respeitar o diferente, saber conviver com o que não é igual. eu não preciso ser igual a ninguém pra poder ter o direito de viver. e independentemente disso, fortalecer os egos gays, por assim dizer, é a maneira de neutralizar esse discurso homofóbico que machuca, de minimizar seus efeitos devastadores, de criar um escudo contra essa faca aí que é amolada, como a aline e a ana e. trouxeram. o discurso discriminatório homofóbico é menos efetivo se e quando se pode minimizá-lo porque eu sou mais eu, foda-se você, não preciso disso, tou bem assim, entende. então por isso eu amei bagarai esse vídeo :D
tou esperando sua foto, gatona!
Ah, sim, concordo muito!
Eu quis dizer no sentido de aceitação do outro lado, sob o ponto de vista do discriminador e tal. Sob o efeito que ambos exercem no outro lado. Acho mesmo que tem que rolar essas campanhas, de valorização e proteção mesmo, como você disse, porque lutar contra e não fazer nada a favor é murro em ponta de faca também, né?
Pode deixar que eu mano a foto sim! Adorei essa cena, deitadinhos na areia, pouca roupa, sol calor… hmmmm!!! =D
eu acho que o mais importante é quem discrimina saber que não pode agir na sua discriminação, sabe; todo o mundo tem o direito de pensar o que for, mas não pode agir nisso. por exemplo, você pode achar que os gays são uns ridículos desprezíveis, mas não pode deixar de contratar alguém pra trabalhar na sua empresa por ser gay. do mesmo jeito que eu posso achar que os evangélicos são umas antas, mas não vou destratar os caras, e assim por diante…
(louca pra ver sua foto já)
:***
Adorei o video, adorei a letra, adorei cada dedinho do meio rijo levantado, acredito piamente que toda ação provoca uma reação, não vejo violencia, vejo uma reação, de igual força e forma ao preconceito que é imposto aqueles que são considerados diferente da maioria socialmente aceitável. Fuck a amiga que olhou feio Too !
beijo
esqueci, adorei tambem a forma bem humorada de Fuck, e adoro falar bosta também como vc falou muito mais nojento pra expressar essa coisa nojenta que é a discriminação seja pelo o que for , se não curte , diga não, mas não obrigada !
é, é bem esse o espírito, hahaha. é um uso debochado do fuck, a ideia é ser bem-humorado. e funciona mesmo.
beijo beijo, lindinha!
como é bom ver as pessoas perderem a paciência sem perder o bom humor.
hahaha
na mosca ;)
Oia eu,
Então eu acho o seguinte: Censura é uma coisa totalmente diferente de punição a atos criminosos. Se alguém me diz que a censura é boa pra os preconceituosos por exemplo, está se equivocando, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Preconceito é crime e crimes não são censuráveis, e sim banidos (ou não!).
O problema tbém é a falta de medidas que não temos da sociedade, da família e de nós mesmos, para podermos julgar até onde eu posso ir com liberdade (que eu julgarei total) sem fazer com que o outro indivíduo me dê um tiro na cara, ta sacando?
“Aaaah, eu gostaria de falar tudo na cara, gostaria de mostrar sem medo, gostaria de gritar pro mundo…” Tá, muito legal, e quem não quer?
O problema é que EU MESMA não sei até onde posso ir sem ser presa e torturada. Muita gente acha que sabe, mas cara, sabe porra nenhuma. Tem muita manifestação pacifica (de passivo mesmo) pra caralho rolando por aí, que em menos de 5 minutos já baxa puliça e senta o cacete em todo mundo, não é verdade?! Sério cara isso é foda! E isso é Brasil tbém galera, vamos acordar!
As vezes eu acho que posso parecer muito acomodada com os meus “achomêtros”, parece não parece? Mas é que EU como gay sei do que to falando…o quanto eu lutei e luto com boas palavras e educação moderada pra sociedade não me chutar e mesmo assim ela chuta…
A consciência do “pecado” nos impede de ir muito além, e cada passo que damos parece que recuamos dois em alguns sentidos…
foda :/
Hehehehe, voltei meio donw né? :P
Ah Lu, acho que ocê vai gostar:
http://www.rocknrollbride.com/?tag=same-sex-wedding
Eis aí um dos meus blogs favoritos de casamento, :)
quanto às manifestações pacíficas que baixa polícia descendo o cassetete, é isso; bobagem confiar que um sistema de censura imposto pelo governo não vá ter sua ideologia subjacente e tal. acho foda criminalizar expressão de opiniões.
e nossa, amei o link, amei mesmo. que gracinha essa mulher!
beijo, querida.
Eu já estava adorando o blog, os textos, mas o nível da discussão nos comentários me impressionou muito. Amei esse espaço.
Lu, você conhece o livro ‘Sobre a Liberdade’, do John Stuart Mill? Em muitos momentos, lembrei dele. A sua pergunta sobre onde traçar a linha que distingue a liberdade de expressão da liberdade “de estar livre de danos causados por outrém”, me remeteu imediatamente ao objetivo dele que é definir a “Liberdade Social ou Civil, ou seja, a natureza e os limites do poder que a sociedade pode legitimamente exercer sobre o indivíduo”. Ele defende que “o único propósito de se exercer legitimamente o poder sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra sua vontade, é evitar dano aos demais”.
Enfim, apesar dos “problemas” do texto (parte de uma noção de progresso da verdade, busca definir a liberdade apenas no âmbito da ‘civilização’, excluindo a ‘barbárie’), acredito na sua capacidade de suscitar reflexões para nossas causas hoje. No mínimo, mostra que a preocupação não é recente, nos insere num debate maior e nos força a dar passos adiante.
O que a Marion falou sobre uma repressão mais social que oficial (que o Mill também discute), lembrei logo do “politicamente (in)correto”. Você(s) devem ter acompanhado as discussões sobre uma propaganda homofóbica do Doritos. Me parece péssimo ter que ficar pautando nossas palavras pelo ‘politicamente correto’, essa censura velada de que a Marion falou; mas defender o ‘politicamente incorreto’ sempre me pareceu desculpa para discriminar. Como se a gente tivesse que ouvir piada homofóbica calado.
Outro dia mesmo eu refletia sobre isso de mandar alguém se calar. Tem um menino da assembléia de deus no meu grupo de estudos e outro dia (numa conversa fora do grupo) ele resolveu defender o Criacionismo enquanto teoria científica. Mandei logo que se calasse. Como diz o Mill “todo silêncio que se impõe à discussão corresponde à presunção de infalibilidade” daquele que o impõe. Há algo de autoritário nisso. No entanto, a presunção de infalibilidade não residiria na certeza que temos quando ao que acreditamos, mas em decidir pelos outros qual é o melhor ponto de vista. De maneira nenhuma acho que ele não possa pensar daquele jeito e nuca vou (cheguei ao ponto de vocês) apoiar instituições que procurem cercear essa liberdade — mas daí a eu ter que ouvir isso… não, obrigado.
Enfim, estou me alongando sobre coisas já tão bem discutidas. Parabéns pelo espaço tão bonito.
Para terminar, de novo, citando o Mill, “é essencial que se permita a diferentes pessoas levar vidas diferentes”.
ai, céus! escrevi um post dentro do seu post. perdão, não me dei conta. :/
obrigada vi.c.o.
do mill até agora só conheço “the subjection of women”. mas tem muitos, muitos autores que trabalham essa questão.
seja bem vindo!