o perigo no corpo de Rodney King

by lu

um caso de violência racista em los angeles de 1991: daquela vez específica em que a polícia espancava um homem negro – o rodney king -, por acaso, alguém que estava por perto filmou a cena toda, e o vídeo foi usado em julgamento – mas não em defesa da vítima; foi usada, pasmem, pelos advogados de defesa dos réus, para inocentá-los. A fita mostrava um espancamento cruel. ela falava por si mesma. Bastou que os advogados tirassem o som dos policiais berrando xingamentos enquanto desciam o cassetete no corpo caído de rodney king, que, sozinho, no chão, sem nenhuma possibilidade de defesa, apenas apanhava repetidamente, e o juri inocentou os agressores. esse caso ficou célebre, foi um aval: o que se viu a seguir foi a intensificação da violência da polícia de LA, que já era alarmante, contra jovens negros.

a gente sabe o que está no vídeo. está ali, é só ver: o vídeo mostra um homem, que em momento algum ofereceu qualquer perigo, sendo brutalmente espancado por policiais armados, que continuaram a espancá-lo – mais, intensificaram a surra e os xingamentos – depois que ele estava no chão. um cidadão inocente, que sofreu agressões físicas graves e injustificáveis de policiais que não quiseram nem perguntar.

é só ver o vídeo – pra quem sabe ver o vídeo. no tribunal, o vídeo foi lido dentro de uma racionalidade racista tal que inverteu o que havia se passado e fez da vítima o agressor, num movimento típico do preconceito: o que o juri viu foi a polícia agindo como devia, sendo justa, pois era cúmplice dos quatro agressores julgados no seu racismo. aquelas imagens chocantes, para o juri, mostravam a polícia agindo certo, fazendo o seu trabalho de proteger a população – a população que é branca, e que precisa ser protegida dos negros. E note que a vítima não havia feito nada; a mera existência do negro, o seu corpo, apenas, já é uma ameaça. ainda que ele esteja no chão, inerte, caído, prostrado, sem oferecer nenhuma resistência, é ameaçador. oferece perigo à segurança pública, é um corpo que intimida, e pede providências. o gesto que ele faz com o braço, para se proteger dos cassetetes que 4 policiais descem em sua cabeça, é, na lógica racista do juri e dos policiais, a confirmação de que o cassetete age em defesa, que imprime a justiça.

duas coisas me saltam aos olhos: a intesificação das porradas quando rodney king está caído no chão, e os xingamentos que os policiais berravam. Além dos xingamentos racistas tradicionais que não preciso registrar aqui, eles comentavam repetidas vezes sobre a sua bunda, e o xingavam homofobicamente. Rodney king é heterossexual e não tinha nenhum trejeito, nenhum sinal que pudesse ter desencadeado a homofobia dos policiais; foi inteiramente espontâneo, como foi a surra, que desencadeou-se sem precisar de mais que a negritude de rodney king. Isso indica que racismo e homofobia estão ligados, ao menos nisso: são ambos, negritude e homossexualidade, de maneira difusa, uma preocupação desses policiais, que oferecem “proteção” contra “esses perigos” que “ameaçam” “os civis”.

o fato de haver policiais preconceituosos, e que agem de forma tão violenta no seu preconceito, está intrinsecamente ligado ao respaldo que eles têm da sociedade e do Estado, cujo julgamento escancarou.
havia uma fita de vídeo, revoltante, que mostrava o espancamento todo, no seu descabimento, no seu absurdo, na sua violência gratuita. era a prova cabal para condenar os policiais à cadeia, a evidência inegável, bastava mostrá-la.
e aconteceu: os advogados dos agressores tiraram o som dos seus berros e xingos, e o que foi visto ali foi um corpo perigoso, que ameaçava, e que justificava, e mais que isso, que pedia os golpes da polícia. porque o corpo negro já é, ele mesmo, a violência iminente. um dos juris chegou a dizer que acreditava que rodney king estava o tempo inteiro com “total controle” (sic) da situação. é um exemplo de algo que teóricos que analisam o racismo já haviam dito antes desse evento, de que o campo visual não é isento ou neutro, não é indiferente às raças, que a maneira como ele se organiza é subordinada à racionalidade – e aqui não digo uma racionalidade articulada, consciente e clara, mas uma leitura do mundo, um modo de viver, sentir e ser –, no caso, racista. O conteúdo do vídeo foi produzido no julgamento, de modo racista, a favor dos agressores e contra a vítima: é um mundo branco, no qual o corpo do negro é feito de medo. medo que inspirou, no caso de rodney king, o seu espancamento – na lógica racista, um espancamento legítimo, válido e necessário, uma vez que a polícia o espancou antes que ele mesmo o fizesse, em defesa de atos violentos não anunciados, mas cujo próprio corpo negro, para eles, é sempre um prenúncio.

_________________________
(post complementar: uma citação de Frantz Fanon.)