o perigo no corpo de Rodney King
by lu
um caso de violência racista em los angeles de 1991: daquela vez específica em que a polícia espancava um homem negro – o rodney king -, por acaso, alguém que estava por perto filmou a cena toda, e o vídeo foi usado em julgamento – mas não em defesa da vítima; foi usada, pasmem, pelos advogados de defesa dos réus, para inocentá-los. A fita mostrava um espancamento cruel. ela falava por si mesma. Bastou que os advogados tirassem o som dos policiais berrando xingamentos enquanto desciam o cassetete no corpo caído de rodney king, que, sozinho, no chão, sem nenhuma possibilidade de defesa, apenas apanhava repetidamente, e o juri inocentou os agressores. esse caso ficou célebre, foi um aval: o que se viu a seguir foi a intensificação da violência da polícia de LA, que já era alarmante, contra jovens negros.
a gente sabe o que está no vídeo. está ali, é só ver: o vídeo mostra um homem, que em momento algum ofereceu qualquer perigo, sendo brutalmente espancado por policiais armados, que continuaram a espancá-lo – mais, intensificaram a surra e os xingamentos – depois que ele estava no chão. um cidadão inocente, que sofreu agressões físicas graves e injustificáveis de policiais que não quiseram nem perguntar.
é só ver o vídeo – pra quem sabe ver o vídeo. no tribunal, o vídeo foi lido dentro de uma racionalidade racista tal que inverteu o que havia se passado e fez da vítima o agressor, num movimento típico do preconceito: o que o juri viu foi a polícia agindo como devia, sendo justa, pois era cúmplice dos quatro agressores julgados no seu racismo. aquelas imagens chocantes, para o juri, mostravam a polícia agindo certo, fazendo o seu trabalho de proteger a população – a população que é branca, e que precisa ser protegida dos negros. E note que a vítima não havia feito nada; a mera existência do negro, o seu corpo, apenas, já é uma ameaça. ainda que ele esteja no chão, inerte, caído, prostrado, sem oferecer nenhuma resistência, é ameaçador. oferece perigo à segurança pública, é um corpo que intimida, e pede providências. o gesto que ele faz com o braço, para se proteger dos cassetetes que 4 policiais descem em sua cabeça, é, na lógica racista do juri e dos policiais, a confirmação de que o cassetete age em defesa, que imprime a justiça.
duas coisas me saltam aos olhos: a intesificação das porradas quando rodney king está caído no chão, e os xingamentos que os policiais berravam. Além dos xingamentos racistas tradicionais que não preciso registrar aqui, eles comentavam repetidas vezes sobre a sua bunda, e o xingavam homofobicamente. Rodney king é heterossexual e não tinha nenhum trejeito, nenhum sinal que pudesse ter desencadeado a homofobia dos policiais; foi inteiramente espontâneo, como foi a surra, que desencadeou-se sem precisar de mais que a negritude de rodney king. Isso indica que racismo e homofobia estão ligados, ao menos nisso: são ambos, negritude e homossexualidade, de maneira difusa, uma preocupação desses policiais, que oferecem “proteção” contra “esses perigos” que “ameaçam” “os civis”.
o fato de haver policiais preconceituosos, e que agem de forma tão violenta no seu preconceito, está intrinsecamente ligado ao respaldo que eles têm da sociedade e do Estado, cujo julgamento escancarou.
havia uma fita de vídeo, revoltante, que mostrava o espancamento todo, no seu descabimento, no seu absurdo, na sua violência gratuita. era a prova cabal para condenar os policiais à cadeia, a evidência inegável, bastava mostrá-la.
e aconteceu: os advogados dos agressores tiraram o som dos seus berros e xingos, e o que foi visto ali foi um corpo perigoso, que ameaçava, e que justificava, e mais que isso, que pedia os golpes da polícia. porque o corpo negro já é, ele mesmo, a violência iminente. um dos juris chegou a dizer que acreditava que rodney king estava o tempo inteiro com “total controle” (sic) da situação. é um exemplo de algo que teóricos que analisam o racismo já haviam dito antes desse evento, de que o campo visual não é isento ou neutro, não é indiferente às raças, que a maneira como ele se organiza é subordinada à racionalidade – e aqui não digo uma racionalidade articulada, consciente e clara, mas uma leitura do mundo, um modo de viver, sentir e ser –, no caso, racista. O conteúdo do vídeo foi produzido no julgamento, de modo racista, a favor dos agressores e contra a vítima: é um mundo branco, no qual o corpo do negro é feito de medo. medo que inspirou, no caso de rodney king, o seu espancamento – na lógica racista, um espancamento legítimo, válido e necessário, uma vez que a polícia o espancou antes que ele mesmo o fizesse, em defesa de atos violentos não anunciados, mas cujo próprio corpo negro, para eles, é sempre um prenúncio.
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(post complementar: uma citação de Frantz Fanon.)

Minha nossa, Lu. Que texto incrível.
Outro dia eu tuitei isso aqui: “Tem algo de muito errado e distorcido se a mera existência de uma pessoa é capaz de inibir ou enfurecer outra.” Que é mais ou menos como eu percebo o preconceito e as engrenagens da discriminação. Basta existir, basta ser para que imediatamente algum valor seja carimbado no corpo. A gente usa expressões como “intolerância ao diferente”, mas eu tenho achado essa categorização insuficiente. Porque ela inclui e “explora” a lógica diferenciação, a evidência de que há diferenças, mas muda o expoente e afirma que estas diferenças devem ser vistas, reconhecidas, aceitas. Ninguém precisa aceitar a braquitude de uma pessoa, nem a heterossexualidade de outra, porque esses traços sequer são percebidos como diferenças, pelo contrário, eles são a norma a partir da qual nós construímos o “diferente”.
É claro que eu não pretendo nem desejo invalidar todas as campanhas afirmativas que se baseiam nesse discurso de “apaziguamento”. É uma coisa que primeiro estou tentando deixar mais clara pra mim mesma, eu estou tentando me desprender dessas noções e caminhar no sentido de entender o preconceito como uma ressignificação do corpo do outro, seja ela positiva ou negativa. Como uma leitura, um processo tão mais profundo quanto violento, porque é antes de tudo uma questão física, que se racionaliza, que abre espaço pra teorias e cristalizações, que engendram humilhações, ofensas, segregação, mas que em última instância volta a se manifestar fisicamente como agressão, mutilação, assassinato. Essa dimensão física, a gente esquece porque passa ao largo dela, é afinal a aniquilação. É uma realização, em pequena escala, da vontade de que o corpo negro seja exterminado e seja esquecido. De que o corpo negro seja sempre o corpo da alteridade, cuja dificuldade de compreensão e aceitação já está prevista em teorias psi e servem, agora, para justificar criminosos – como os policiais – e os cúmplices – todos os demais.
beijo
é, o corpo da alteridade, o outro que me ameaça porque existe para além da fronteira que me delimita – e a questiona, talvez? -, que me faz vê-la, me ver na minha fragilidade. o que eu acho doido é que é uma defesa, veja bem, nos casos desses espancamentos da polícia, por exemplo, uma prevenção da violência que os negros “vão” fazer. então ela mesma, a polícia, está legitimada a espancar, pra não ser espancada. e faz o que não pode ser feito pelo outro, em antecipação. é uma “paranoia branca”, que projeta a própria intenção violenta no outro.
Eu procurei na internet, mas não achei, o discurso que o Bush fez no dia seguinte ao veredicto da inocência desses 4 policiais; é impressionante. eu li a butler comentando que ele condenou a “violência pública”, especialmente a “tão lamentável violência contra a propriedade” – vai vendo! porque é claro que houveram protestos e a coisa toda virou um lance “nós, a ordem, a população, a segurança pública”, versus “esses corpos negros que ocupam as ruas, brutalizados, vândalos, marginais, intimidadores, ameaçadores, que querem nos ferrar”. (eu estou faz tempo pra escrever esse post e um outro mas, caralho, até dói.) e aí, quando há homicídios da polícia, a culpa é justamente, já de antemão, dos jovens assassinados. nesse quadro, não há como não ser, e não há como reconhecer essas vidas.
mas esse reconhecimento, esse entendimento de si e do outro, é um passo importante, eu acho, no combate ao preconceito. é preciso entender o que acontece, como funciona, pra saber como lidar com isso, o que esperar, o que está em jogo e como desmontar o esquema, sabe. nisso a psi pode, e deve, ser usada a nosso favor – só é preciso distorcer um pouco a linguagem pra não cair inadvertidamente naquilo que se quer afastar… isso eu tento explicar no texto que te mandei ontem ;)
estou adorando pensar essas coisas contigo, sempre aprendo muito no seu blog, com você e com as nossas conversas.
beijo
Lu, não sei se as coisas estão mudando, mas acredito q estejam pelo menos um pouco diferentes de como eram antes, essa semana eu vi na tv um caso ‘parecido’, de um cara [negro] q foi espancado, mesmo desacordado, por policiais amigos do policial q o cara havia atropelado [um atropelamento onde a vítima saiu andando, o parachoque do carro bateu na perna dele e ele caiu], eles foram expulsos da corporação antes mesmo do julgamento, coisa q no caso do texto não aconteceu. aqui em brasília já aconteceram alguns casos parecidos com esses e pra nossa sorte, ‘civis indefesos’, a justiça foi feita e os policiais além de expulso foram presos. estou horrorizada com a onda de violência q assola nosso país e principalmente as grandes cidades, hj não sei em quem eu acredito mais, nos ‘mocinhos’ ou nos bandidos… racismo e homofobia andam juntos sim e mente quem disser q são coisas completamente diferentes, ambas são formas de exclusão, são formas de acreditar q existem seres superiores aos outros no q se refere a cor da pele, preferência sexual e estado de origem, pq coloco aí tmb os q tem preconceito com nordestinos. conheço o racismo de perto pois meu pai é negro, e cresci ouvindo piadas de mau gosto, não direcionadas a ele especificamente, mas negros de um modo geral, acho q fica mais comum ouvir qndo se vive no meio da situação.
beijos
onde, isso, aqui no brasil? em q cidade, você sabe?
mas, sim, acho que as coisas, bem devagar, estão começando a melhorar – mas ainda temos muito pelo que lutar, sem dúvida, e essas coisas ainda acontecem; ainda tá cheio de gente muito preconceituosa que age confiando num esquema hegemônico racista que lhes dá respaldo ainda hoje.
um beijo
não, foi nos Estados Unidos, a cidade específica eu não sei, mas apareceu o vídeo na tv e o troço foi feio, o carro q o cara estava capotou alguns metros à frente e ele foi jogado pra fora do carro inconsciente e mesmo assim os policiais o espancaram, as porradas [com cacetete e chutes] eram tão fortes q o corpo dele se mexia do chão. sim, aos poucos as coisas estão mudando, a passos lentos, e a culpa de tudo isso ainda é nossa q não fazemos a nossa parte qndo algo tão escroto assim acontece. tenho uma opinião muito radical sobre esse lance de racismo e o q vem dele, maaaas, deixa pra lá, senão é capaz das pedras virarem na minha direção. rs
beijos
ai, como assim você provoca e não conta! aqui o ambiente é amigável, se falarem mal de você eu bloqueio hehehe
mas legal você ter trazido o lance com os nordestinos também, tem tudo a ver. é tudo o mesmo movimento, no fim…
beijos
kkkkkkkkk, curiosa…
assim ó, em todos os casos de exclusão eu acho q boa parcela de culpa deve ser atribuída aos q se fazem de coitados, tendeu? tipo assim, no caso dos negros eu acho deplorável precisar de cotas pra fazer faculdade, eu jamais usaria a cor parda da minha pele pra conseguir vaga na federal daqui e fazer o curso dos meus sonhos… assim como acho q tem gays q se usam do preconceito pra agredir, tipo ‘se eu não fizesse fariam comigo’, acho q acima de tudo as pessoas precisam se impor pelo respeito, não nego q existam vítimas do puro preconceito e q mesmo impondo respeito sofrem algum tipo de agressão, mas se fazer de coitado e juntar a uma minoria só aumenta o preconceito.
lu, é o q eu penso e não obrigo ninguém a pensar assim ou tento convencer as pessoas de q esse é o pensamento certo ou mais racional sobre o assunto, mas acho q as pessoas tem q se impor com inteligência e respeito, só assim vamos conseguir igualar um pouco esse brasil de meu deus.
beijos
eu sei que você não obriga ninguém, nem te imagino querendo se impor, querida.
gays que usam do preconceito para se agredir? tipo como? não faço ideia de que tipo de situação você tem em mente.
enfim, de qualquer forma, ações afirmativas não é se fazer de coitado – quem faz dos negros “coitados” não são os negros, são os preconceituosos, e essa é uma realidade bastante palpável, que existe, e com a qual devemos lidar, que deve ser enfrentada. não dá pra tentar fingir que os negros são iguais aos brancos, ignorar o preconceito, que aí que o mundo vai seguir sendo sempre preconceituoso.
beijinhos, obrigada por dizer o que pensa, é uma opinião válida e importante :*
Não é para ‘se agredir’ Lu, é para se defender, conheço alguns q já chegam impondo sua presença como se isso fosse necessário pra ser respeitado e aceito em determinados lugares. Vivo num meio onde presencio preconceito de todos os lados e nem por isso vivo na defensiva. e não falo de ações afirmativas não, falo de ações defensivas, usar de questões até agressivas como auto defesa, pra fazer valer direitos… ah, e ninguém é igual a ninguém, sendo assim não dá pra querer igualar classes e raças [e isso não é um comentário racista, só uma constatação], dá sim pra viver com respeito ao próximo e vivendo e deixando viver, todos são livres pra ir e vir, e só vamos viver num mundo menos preconceituoso o dia em que as próprias ‘minorias’ pararem de se enxergar como menos, como pouco e como excluídos. mas ó, essa conversa dá pano pra manga, e na boa? fiica muuuuuuito melhor com cerveja e aperitivos… kkk
beijos
ah, desculpa, esse “se” aí foi um erro. você falou: “gays q se usam do preconceito pra agredir“, isso que eu quis perguntar. como assim, impor sua presença? como que isso é uma agressão? que ações agressivas como auto defesa?
quando eu falei de ações afirmativas, estava me referindo à ações como as cotas para negros, que costumeiramente são chamadas assim. eu não vejo como as próprias minorias se enxergam como menos para além do menos em que elas são constrangidas pelo preconceito, mas tudo bem. o que eu quero entender mesmo é que agressão seria essa dos gays como auto defesa para fazer valer direitos, que eu continuo sem fazer ideia. como é isso?
beijos
exemplos eu tenho vários, mas vou dar só um q acho q mostra bem o q estou dizendo…. trabalhei por 10 anos numa empresa, e trabalhando comigo tinha um cara q ninguém sabia nada da vida dele, só q morava sozinho, era de outra cidade e solteiro. isso faz dele um homossexual? não, de jeito nenhum. só mostra q é um cara discreto e não mistura vida pessoal com profissional. numa determinada situação estávamos eu e ele na ‘reta’ de uma promoção, e saiu pra mim, sabe qual foi a reação dele? “Não me deram a promoção pq sou viado, ameaço a credibilidade da coisa por gostar de homens”, assim mesmo, ele se ‘defendeu’ agredindo, pq em momento nenhum ninguém levantou essa hipótese e somente soubemos da orientação sexual dele no dia dessa explosão. E pior, a partir desse dia ele parece q surtou. Claro q não estou dizendo q todos são assim, mas conheço negros e gays q pensam como eu sobre o assunto.
bjs
ah, tá, agora entendi melhor. mas eu não classificaria como agressão esse desabafo dele – porque, veja, quem pertence a uma minoria sofre muito preconceito, e cria um trauma. a pessoa já sabe como vai ser tratada, com base em como sempre foi tratada. cria expectativas. independentemente de se ele teve ou não a promoção por ser gay, gays rotineiramente são desfavorecidos, e ele sente isso na pele, como gay; é só natural que ele espere isso. por conta do trauma. por isso não vi agressão, acho uma fala válida.
beijo
por isso eu disse q sou meio radical nesse sentido, eu achei completamente desnecessária a reação dele sobre o caso, ninguém o estava ameaçando ou agredindo, muito pelo contrário, não tinha como ser nada pessoal já q ninguém sabia nada sobre ele, ali a questão foi profissional, só isso. eu sei q traumas existem e eu tmb tenho os meus, mas nem por isso vivo na defensiva ou achando q todo mundo q fala comigo está me discriminando ou sendo preconceituoso, isso vai muita da cabeça da pessoa e de como ela lida com seus problemas.
bjs
mas esse trauma específico não é uma coisa pessoal, é um fenômeno social. é um dos efeitos cruéis do preconceito, entende? não é uma coisa da pessoa ser meramente mal resolvida, é um efeito da discriminação, não dá pra julgar o cara como se julga um histericozinho, como se ele fosse um fraco ou um paranóico, porque o que ele diz tem um contexto e um sentido que não podem ser ignorados nem menosprezados.
Meu comentário vai ser meio escroto, mas enfim: sim, é tudo muito lamentável, seu texto está bem escrito como de hábito e etc. Mas isso tudo me entristece em particular porque mexe com a minha seara. Minha área, minha profissão. E me entristece ver uma decisão judicial tão absurda e uma distorção tão grande das coisas dar certo. Eu sei que é ing~enuo da minha parte dizer isso, mas enfim. Me entristece.
eu pensei nisso, quando estava escrevendo; pensei em você, na cynthia e na erika, que de vez em quando passam por aqui e que são dessa área. eu não entendo de direito, mas quem conhece a coisa pode ter uma abordagem bacana, de ver como é que o direito no seu exercício se compromete com uma episteme que deveria superar, como o racismo, na qual não há justiça possível, e como que se pode evitar isso aí. certamente tem gente estudando isso.
claro que esse caso é super extremo, também. de racismo institucionalizado num país “livre”, difícil ver igual. incrível ver como as coisas podem dar terrivelmente errado…
mas o meu trauma não é uma coisa pessoal e muito menos meramente coisa de pessoa mal resolvida, muito pelo contrário, é fruto de preconceito da sociedade e nem por isso eu sou agressiva ou vivo na defensiva. mas é aquilo q falei logo no começo, tenho uma opinião muito radical sobre isso e não vai mudar, não enquanto as pessoas não se derem o devido valor.
bjs
oh, mas que bom, que você tem uma estrutura e um jeito tal e experiências tais que consegue lidar com o mundo como se não existisse preconceito e sem pressupô-lo nem esperá-lo. e se é assim, não há trauma, e não houve o impacto que o causa. mas continuo dizendo: não é agressivo saber que o mundo é preconceituoso quando ele de fato é e depois que isso já foi exaustivamente demonstrado e sentido, e contar com isso. pelo que você contou, o cara não foi agressivo. talvez ele tenha sido ressentido, sei lá, mas dizer que foi uma agressão é muito; existe um contexto que, como eu falei, não pode ser menosprezado. é preciso cuidado porque os efeitos cruéis, constrangedores, tolhedores do preconceito são negligenciados ou minimizados o tempo todo como parte da engrenagem mesma da discriminação, então a gente não pode nem, por um lado, crescer esses efeitos e fazer da discriminação um monstro inescapável, nem minimizar a dor que ela causa.
beijo
Lu, o fato de eu saber ‘trabalhar’ o meu trauma e seguir a vida sem maiores problemas não significa q não seja trauma e muito menos q não haja preconceito sobre o assunto, só não acho q preciso ficar me fazendo de vítima pra sobreviver…
e a reação do carinha lá foi sim exagerada e agressiva, levando em consideração o contexto da situação e a reação dele, não foi só o q coloquei aqui resumindo a história, a coisa toda foi muito maior.
bjs
então, isso que eu tou chamando de trauma não é um nome que eu dei, é um conceito: esse trauma é o fruto do impacto interno do preconceito nos sujeitos discriminados, entende, a partir do qual o sujeito passa a viver contando com o fato de que o tratamento que lhe é reservado costuma ser determinado por um conjunto de características que lhe imputam, e com as quais ele(a) tem que lidar – não só com essas características que lhe imputam mas com a relação que estabelecem com elas e como elas são vistas, que determinam o tratamento que ele recebe.
então a coisa toda é de fato sempre muito maior do que uma situação pontual; as situações, cada gesto, cada palavra, é sempre lido e ganha seu significado de acordo com os gestos anteriores etc. e tal. esse é o lance com o trauma…
eu estudo essas coisas, penso muito nisso e adoro saber as outras opiniões e discutir o assunto com gente interessante, sabe. espero não estar sendo chata pra você, pentelhando – e fazia tanto tempo que você não aparecia, eu tava achando que você nem vinha mais e tal, rs.
beijim
Ta todo mundo certo, isso é reflexo da sociedade, pensamentos tambem são multi.
Acho sim triste, triste a agressão seja qual for, triste qualquer tipo de preconceito
Existe abuso de poder, existem policias que estão doentes por nao saberem lidar com realidades crueis e agressivas e usam do veneno certos de que em suas mãos serem remédios. O errado nao se torna certo apenas por ser praticado por quem esta do lado dos mocinhos.
Mas existe como a sentimental disse pessoas que se utilizam do preconceito a seu favor, tentando se benificiar dele e concordo fortificando-o ainda mais.
Queria mesmo antes de morrer ver e deixar pra meu filho e netos (va saber) uma sociedade onde nao importa a cor da pele, nao importa o que se faz debaixo, encima, de lado, de tras ou de frente , onde o que importa e respeitar o proximo como a si mesmo e que ate la nos ja temos aprendido a nos respeitarmos pra entender essa lei.
Beijo Beijo
é, pena que essa sociedade ainda tá bem longe de existir :/
quando a gente estiver num lugar onde preconceito seja a exceção e não a regra, aí já vou dar meus pulinhos de alegria, heheh
beijinhos, querida
bom, pelo excesso de comentários nesse post acho q compensei a minha ausência por aqui né??? kkkk
lu, desde o começo estou te dizendo q esse assunto associado à minha opinião radical dá muito pano pra manga, passo por preconceito todo dia e de todos os tipos, pelo pai negro, pelos amigos gays, pelos amigos nordestinos entre outros N preconceitos, velados ou não, que levam sim às pessoas a criarem uma defesa e isso eu não condeno, muito menos a questão do trauma, o q não concordo é a história da se transformar em vítima e viver dentro de uma redoma de defesa como se todos q se aproximassem só tivessem o interesse de agredir moral ou fisicamente. não dá pra viver sempre na defensiva, assim vc só atrái coisa ruim, só vai trazer pra perto de si os sujeitos q condenam tal atitude ou forma de vida ou cor da pele.
beijos
Agooora eu entendi melhor o que você tá dizendo (viu, é devagar mas uma hora a ficha cai, aqui é de manivela ainda kkk). é ser um ressentido mesmo, né, a pessoa acaba se prejudicando. entendi! é que o foco pra uma militante como eu é outro, nunca vai ter essa de ver como a pessoa que é parte de uma minoria fica qualquer coisa de ruim por ser parte da minoria, por motivos óbvios: nunca que se vai generalizar um comportamento negativo de minoria, ainda mais por ser da minoria. mas agora arejou aqui, haha.
bjo
gostei MUITO disso ..preconceito seja a exceção e não a regra, já me dá um cadinho mais de Fé, gostei, gostei
lu, resumindo?
acho q perpetuar uma dor ou um trauma ou um sofrimento só faz mal pra é adepto dessa prática… viva e deixe viver, e a partir do momento q ‘vc’ se aceitar e começar a acreditar no seu potencial as coisas mudam, posso te garantir. e vou além, é o q algumas pessoas dizem: coisa negativa atrái coisa negativa.
beijos
corrigindo:
*pra quem é adepto…
bjs
- quietinha,
é! já vai ser um mundo muuuito melhor =)
beijinhos
- sentimental,
o problema é que ninguém, ninguém, ninguém mesmo, “escolhe” ser infeliz, ser menos do que os outros e viver precariamente. não se pode, simplesmente não se pode, botar “a culpa” no integrante da minoria: vivemos em uma sociedade preconceituosa, e o que faz mal é o preconceito. não dá pra falar como se as minorias, ou como se alguéns das minorias, se auto-impingissem uma vida miserável, ou como se eles atraíssem isso para si, entende? fazer isso, como eu já disse, é esquecer que o mundo é preconceituoso – um movimento do preconceito mesmo que age e se esconde enquanto causa das desgraças que provoca. o problema é o mundo preconceituoso, não as minorias que atraem desgraça pra si, rs. garanto que o buraco é mais embaixo e não é só “viver com uma atitude positiva” ou esse tipo de coisa que vai acabar com o preconceito e com a sua opressão.
beijo
Lu,
Minha pesquisa de conclusão de curso se deu em torno das representações dos negros na imprensa de uma cidade do interior paulista no final do século XIX (no caso, utilizei como fonte um jornal com uma tiragem diária). Mas enfim, o que queria lhe dizer mesmo, é que o negro seeempre foi visto e tido como o selvagem a ser domesticado.
A cor da pele em si carregava essa idéia, e os discursos raciais-científicos(febre no século XIX) acabavam contribuindo para isso. Haviam uns cientistas-teóricos pirados que defendiam a idéia do branqueamento, inclusive acreditando que só assim seria resolvido a problemática da super população negra (e, conseqüentemente, selvagem) em território brasileiro.
Acreditavam que somente através da miscigenação, ou seja, com o gradual branqueamento da pele, que o comportamento se civilizaria.
Nina Rodrigues (médico e cientista) dizia que o africano tinha lá suas qualidades, como a força física e a submissão, por exemplo; mas o casamento desse africano com o brasileiro, segundo ele, acabou gerando um negro preguiçoso. (Olha, acredite, tinham coisas piores!)
Só sei que é abismante a penca de teorias racistas…
Mas enfim, pulando de lebre pra gato…
O Brasil, mesmo que com racismo e preconceitos ainda latentes(e como!), não teve uma história como a Norte Americana. Lá as coisas se deram no plano da segregação, como bem sabemos. Daí já é possível supor o grau das paranóias…
=)
Beijos, beijos
Vocês conhecem Sublime, certo…?
http://en.wikipedia.org/wiki/1992_Los_Angeles_riots
(Ótimo post.)
- vanessa,
que legal sua pesquisa.
realmente, o racismo nos eua se dá de um jeito bem diferente daqui, cada lugar tem as suas especificidades. isso dos negros serem uns selvagens é algo que temos em comum com eles, ainda que cada um se manifeste de um jeito… você viu esse desenho “tom and jerry”, de 1932? chama “Plane Dumb”.
é a história de dois carinhas que viajam pra áfrica, mas pra não serem hostilizados pelos terríveis selvagens nativos, eles se disfarçam de negros, pintando as caras – mas aí começam a falar com um sotaque e mudam seu comportamento, virando muito, muito burros.
impressionante.
– pedro,
u-au!! meu, amei, amei esse vídeo! eu não sei quem é sublime (hehe), mas putz, muito obrigada mesmo por deixar o vídeo aqui. é demais.
pô, o que você faz se você mora num lugar onde o estado não te reconhece como cidadão, pelo contrário, só te vê como uma ameaça a ser violentamente “neutralizada”, onde você não tem voz e ninguém fala por você?
cara, que legal esse vídeo. obrigada!
Sublime é animal!
Mas que desenho digno de nojo esse tal Plane Dumb.
Walt Disney também têm váááários com conteúdos absurdamente preconceituosos.
=)
né? como o mundo era sem-noção em 1932.
Putz, eu vi faz tempo um post animal que o cara teve a paciência de pegar trechos de váaaaaaaaarios filmes do walt-disney com um levantamento do racismo em todos. na época eu tuitei, mas faz tempo, perdi o link… q saco, devia ter guardado.
:*
e olha so
eu ia postar algo que vi no twitter, e vejo este texto tipo ‘pé no chão’ – maravilhoso por sinal
lembro de uma fala do “american dad”, do tipo “os gays sao os novos negros” (e era curioso, questionavam por que gays não podiam ser republicanos – do mesmo partido que a familia bush, por exemplo).
e realmente, racismo (seja brancos/negros, ou mesmo os extremismos: kkk e nazi-fascismo) e homofobia andam de mãos dadas.
ando meio preocupado com isso, volta e meia descobrem um grupo neonazista no sul-sudeste e ligações com empresários e políticos, que mantem estas celulas :|
como seria mais facil se ngm implicasse com os outros…
hahaah, adoro american dad! esse e o family guy, eu amo.
os eua é complicado. eles têm as pessoas mais inteligentes, são os seus melhores críticos, e ao mesmo tempo convivem com o pensamento mais tacanho dentre gente que tem poder e tem respaldo. assusta mesmo, ainda mais porque aqui a gente vive imitando os caras… nem me diga, putz, muito melhor se parassem de implicar e pronto, vai cuidar da sua vida.
abraços!
Olá. Como vai?
Faço mestrado em Comunicação na UERJ e meu tema de pesquisa são os blogs pessoais. Gostaria de saber se posso incluir o seu blog em meu grupo de análise. Eu precisaria usar trechos dos posts publicados em janeiro, fevereiro e março e também conversar com você, por telefone, e-mail ou MSN, para saber mais sobre o blog. Não é preciso se identificar, caso não queira, ok?
Aguardo uma resposta. Espero que seja positiva…[rs]
Ah, encontrei o blog entre os finalistas do concurso Best Blogs Brazil.
Um abraço,
Patrícia
sim, podemos conversar por aqui e por email. dando os créditos devidamente, pode usar trechos de posts, sim. depois você me fala quais trechos são, que fiquei curiosa, ok? e posso saber mais sobre o seu tema?
ah, vi seu email agora, acabei de responder.
beijo
Lembro bem desse caso e também nas suas consequências. Los Angeles pegou fogo, literalmente. Casos como esse, infelizmente, já vi muitos, inclusive aqui. Certa vez, um homem negro estava entrando em seu próprio carro, quando a polícia foi chamada. O imbecil que fez a denúncia achou que ele estava roubando. Resumindo a estória, o homem negro, empresário, foi morto pela polícia que o confundiu com ladrão.
Beijos, Lu.
Enfil
isso acontece direto, ano passado mesmo teve um dentista morto a tiros porque a polícia tava atrás de algum bandido fujão, niqui viu um negro atirou primeiro e depois viu que tinha matado o negro errado… e a gente nem fica sabendo de todos os casos, aposto.
por mais que os policiais não sejam devidamente punidos, é outra coisa ter um sistema jurídico funcionando e cúmplice desse tipo de violência racista… isso dá medo. pelo menos a noção do certo e do errado o estado precisa ter!
beijão, querido.
vi o comentário da Vanessa, o Nina Rodrigues, salvo engano, escreveu sobre homossexualidade também, fez parte da onda eugenista que rondou o brasil.. Nina Rodrigues é o nome de um instituto famoso de sampa ou do rio eu acho, foda. Só no brasil pra eugenistas e racistas terem nomes em instituições e ruas…
É incrível como o outro, o diferente incomoda aqueles considerados normais. Não tem um dia que eu não escute uma piadinha racista ou homofóbica… E tem vezes que eu fico esperando que façam uma piadinha homofóbica comigo só pra poder devolver a agressão… De tanta agressão velada eu tou me tornando agressiva…
bj, olha eu aqui!
eba! tou vendo.
mas não é agressiva! hahaha. e eu que sou casada com um cara também vivo escutando homofobia, especialmente nos meios em que vivo como ht. é escroto. acho que quem é ht, via de regra, não tem noção do quão pesadas as coisas são ainda.
outro dia eu coloquei a minha bolsinha no parapeito da janela e conversava com o meu amigo que estava do outro lado da janela, que é negro. aí um cara chegou, pelo lado de dentro, comentando: Ei, toma conta da sua bolsa aí hein, não deixa assim que levam embora! Na hora eu não percebi, mas uns segundos depois caiu a ficha que esse cara estava brincando que o meu amigo, que ele também conhecia, poderia roubar a minha bolsa.
muita escrotice.