uma pequena divergência e um consolo

by lu

de um dos meus blogs favoritos do momento:

O problema é que existem dois modos de curtir uma história sobre uma mulher que deixa que seu amante a amarre, a estapeie, e a coma. O primeiro é enquanto uma representação de BDSM consensual que é gratificante para ambos os participantes. O segundo é como a humilhação de uma puta suja.

Essa assimetria está em quase todo esforço sex-positive que é aberto ao público. Se você vai a uma atividade sex-positive apenas com o que você aprendeu do senso-comum – que sexo é sujo, mulheres promíscuas são vadias nojentas, a sexualidade feminina existe para o entretenimento masculino, pervertidos são algo do outro mundo – você vai interpretar tudo errado.

nesse post a blogueira comenta como a sexualidade vivida e retratada positivamente pode ainda assim ser percebida negativamente por quem não tem o olhar suficientemente bem intencionado. Eu diria que existem muito mais que dois modos de curtir uma história BDSM, ou uma pornografia ou uma transa ou o que for, porque cada um curte como pode, se puder. E acho que não só um retrato positivo da sexualidade – e da sexualidade feminina, mais especificamente – pode ser percebido como negativo, mas vice-versa. O que é quase a mesma coisa – explico: vamos dizer que você grave em vídeo a transa hétero mais gostosa do mundo, mostrando como todos os detalhes, gestos, movimentos, expressões faciais, palavras, gemidos, tudo aponta para o máximo prazer e gozo da mulher, mostrando a mulher numa posição ativa tomando as rédeas da transa a seu favor, pra se divertir. E alguém que vê em toda transa hétero uma mulher subjugada que se dobra ao desejo masculino pode assistir ao filme e ver nada além disso: uma mulher subjugada se dobrando prum cara que impôs sua vontade. O contrário é mais difícil, em uma sociedade que é acostumada a ver no sexo algo que agrada aos homens mas nem tanto às mulheres, mas é também possível, porque como cada cena é percebida depende do espectador que a percebe, das suas expectativas e possibilidades, do treino do seu olhar: imagine uma mulher que tem a fantasia secreta mas consciente, apenas fantasiada, de ser estuprada; pode ser que ela se excite vendo uma cena de estupro em um filme cuja intenção do diretor com a cena era revirar os estômagos da plateia.

nossa experiência sexual, talvez por ser  um âmbito particularmente plástico, me parece particularmente carregada com os efeitos dessa condicionante. Eu não quero ser solipcista, não estou dizendo que no fim estamos todos sozinhos nesse mundão, porque claro que o outro está sempre na equação e não temos controle de onde o sapato nos aperta; mas, por óbvio que seja isso, como tem tanta gente que ainda fala como se tudo fosse pão-pão-queijo-queijo nesse mundo tão rico e tão dado às mais variadas interpretações que é o da sexualidade, aqui estamos nós outra vez. O que eu estou dizendo que é óbvio é que, essas coisas, cada um vê o que seu olhar lhe permite.

e já que estou aqui jogando conversa fora e tirando a poeira desse blog (porque ele ficou tão charmoso de cara nova), vou contar uma história. Conheci um cara, gringo vindo diretamente da Idade Média, que só come puta. Mesmo. E o que me falaram é que a vida sexual dele tem que ser assim, coitado, porque ele é casado, e se ficar de conversinha com qualquer uma depois pode dar merda, tem que administrar a esposa e não pode se envolver com mais ninguém. Francamente; na ocasião eu ainda tentei explicar como eu achava que esse cara tava se limitando apenas pelas expectativas machistas dele, porque tá cheio de mulher no mundo que comeria o cara só pela farra, sem querer entrar num climinha namoro. Eu tenho vários amigos e conhecidos casados que trepam muito por aí e nem por isso se limitam a prostitutas, oras bolas; o cara faz assim porque ele acha que toda a mulher que transa com ele precisa de algo em troca além da trepada, e como ele não pode bancar o príncipe, paga pela transa, e fica tudo claro, que é sexo por dinheiro e não por atenção ou sei lá o que exatamente que ele espera que as mulheres que transam com ele querem dele. E semana passada esse cara foi expulso de casa porque bateu na mulher dele – viu, eu já tinha dito que o cara é machista. Mas o ponto é que o cara acha que ele só come puta porque ele não tem outra escolha, não vê que o mundo pode funcionar de outras formas. Coitado. Dele, e da mulher dele, claro. Nessa história toda me resta esperança para as putas que ele come, que embolsam talvez tudo o que o gringo tem de melhor; se o pique da mulher for bom, até com um imbecil desses ela pode se divertir.

voltando ao post que eu citei de início, uma coisa que a blogueira enfatiza muito bem é o quanto alguém com um olhar errado pode atrapalhar uma brincadeira. Quem frequenta clube sado-maso, casa de suingue e afins, por exemplo, sabe como um tonto equivocado basta pra estragar um clima bom. ”E é nojento e horroroso ter o que você achava que era uma exploração mútua da sexualidade com alguém, só pra descobrir que eles apenas viram você como uma vadia descartável que estava cedendo fácil“, ela diz. Isso me incomoda um pouco, porque do mesmo jeito que é possível que o olhar enviesado de alguém se sobreponha ao seu, é possível que o seu te baste, que só o seu aja no seu desejo, que ele dite o grau e modo da sua diversão sem que a percepção de um outro que não o acompanha constranja seu tesão. E por que o seu olhar não valeria mais que o do outro, se não para o outro, ao menos para você mesma?

eu aprendi, na vida, que o mundo está cheio de imbecis, e que a gente tem que saber eleger as pessoas bacanas no mundo e construir nosso círculo social, sexual e afetivo, com elas. Mas acho que mais determinante ainda na nossa felicidade é saber também aproveitar a boa vida mesmo naqueles momentos em que o convívio com os imbecis se apresenta incontornável. Há momentos para se dar de ombros, para deixar gente falando sozinha, nos quais aliás se valoriza aqueles com quem mantemos interlocução. Claro, como eu disse, não temos controle de onde o sapato nos aperta – mas cada olhar é apenas o que é, tem apenas a força que tem, e se valida como pode. O nosso, e o deles.