londrinos e londrinos

by lu

quando o Estado sanciona violência, se mostrando, em todo o seu poder, cruel e injusto; quando se recusa a reconhecer certos cidadãos enquanto cidadãos, e, mais ainda, quando percebe alguns corpos humanos não como o âmbito da vida humana mas antes como o lugar privilegiado da ameaça à toda a vida que reconhece como humana; quando o Estado impõe violentamente fronteiras imaginárias arbitrárias, empurrando para fora do direito à existência aqueles que busca externalizar, quando sua paranoia lhe permite eliminar minorias como a maneira mais natural, única viável, de manter-se enquanto tal; quando, enfim, o Estado, na figura da polícia, se reserva o direito – e mais ainda, e se incumbe do dever – de simplesmente atirar para matar em habitantes de Londres que não sejam brancos ingleses… é o caos. Atribuir, portanto, o início do caos ao momento em o povo saiu saqueando e queimando é insistir na posição cega do soberano acuado, a um tempo fragilizado e destrutivo, que desinformado perpetua um sistema exclusivo de violências.

nos Estados Unidos houve uma série de ataques isolados nos anos 90 a jovens negros por parte da polícia; como em Londres diante do assassinato de Mark Duggan, os policiais impunes agiam com o aval do governo (e de uma população branca que se via ali representada). A palavra em inglês usada na ocasião para descrever a resposta da população minoritária e rechaçada, riots, ressurge agora no contexto de uma Europa xenófoba. Jean Charles, em Londres, pode não ter sido um nome digno de muito luto ou muita nota; mas o modo de ver que imprimiu nele a marca do descaso pela vida não se cura a si mesmo espontaneamente.

vi outro dia a foto de uma placa que pedia à Londres: Calma. Talvez porque então tudo corresse conforme o esperado, esqueceram de pedir calma quando policiais ávidos por sangue de terroristas mataram um brasileiro que ainda não tinha aparecido no enredo – e o enredo seguiu sem punições nem reparações. Confesso, aqui do meu sofá, que parte de mim recebe com algum alívio as demonstrações públicas de que a tendência à maior prontidão e disposição para o luto por prédios antigos do que por vidas humanas não é universal.

mais que calma, peço: que tal se (re)pensar os modos de lidar com questões de segurança pública?