fazendo a scarlett
by lu
o primeiro filme que o sylvester stallone fez foi um soft porn vagabundo. ele tava na maior pindaíba e ganhou uma merreca que o ajudou bastante, na época (não assisti ainda, parece que ele só aparece e nem come ninguém). ainda na década de 70, a produtora ofereceu a ele que pagasse pro filme não ser lançado, tipo a xuxa com o filme em que ela banca a pedófila; pediram uma nota. ele disse: eu não pago nem dois dólares por essa porcaria. então resolveram exibi-lo em sessões exclusiva de cinema, cobrando 10 mil; a respeito disso, ele disse: Caramba, por 10 mil, eu vou lá pessoalmente!
essa semana, como todo o mundo sabe, vazou na internet umas fotinhas privadas da scarlett johansson. julguem por si mesmos; as fotos, que parecem tiradas casualmente sem grandes cuidados, são dignas de uma das mulheres mais lindas e sexyes que já pisaram nesse mundo. a pose do auto-retrato de rosto com a bundinha no espelho já foi consagrada e seu nome virou o verbo, scarlettjohanssoning: você pode fazer a marilyn monroe e segurar o vestido branco contra o vento, você pode fazer a jessica rabbit e cantar de vestido vermelho puxando a gravata de um cara, e agora você pode fazer a scarlett no espelho do seu banheiro com a câmera do seu celular.
pois a própria scarlett johansson não curtiu a história e botou o FBI pra cuidar do caso – e pipocaram textos dramáticos de webfeministas americanas tentando conscientizar as pessoas do quão terrível é a situação; àquelas que se comparam com a scarlett em sua dor de quem também um dia já teve fotos privadas vazadas na internet e conhece a dor lancinante de ter sua intimidade invadida, a resposta mais evidente é que scarlett johansson, afinal de contas, é uma figura pública, e mais que isso, uma atriz, que trabalha com o corpo e com a imagem, cuja beleza é celebrada desde muito antes dessas belas fotos vazarem; sua fama, sua grana, sua carreira, seu status, seu nome, sua arte, nada disso pode ser separado de certos atributos que são imediatamente identificáveis nas fotos que vazaram, e a gente ainda precisa comer muito feijão pra se comparar a ela, na alegria ou na tristeza.
mas há aqui um aspecto recorrente na cultura americana, que aparece também no fenômeno do “bullying”: se um problema do bullying, certamente o mais comentado, é o impacto torturante que ele tem em sua vítima, está claro que reconhecer e validar a postura da vítima é fundamental para ajudá-la, individualmente. mas em maior escala, lamentar a condição da vítima do bullying tem o efeito contrário de validar, por sua vez, a posição de poder daquele que o inflige – figura em geral anônima e difusa, apoiada em toda uma racionalidade que o privilegia e enfraquece a vítima por seja lá qual for seu “defeito” em questão; a vítima é figura central e sempre específica. quer chatear alguém de quem você não gosta? o bullying é uma maneira fácil, grátis, rápida e eficientíssima, segundo o que eu aprendi numa matéria do jornal sobre o novo terror dos colégios.
há uma crítica espirituosa na música do andré abujamra e zeca baleiro, lexotan, desse tipo de postura dramática. ela parece perder a força frente à notícias como a morte do garoto de 14 anos que é o mais recente caso de suicídio de um adolescente gay americano vítima de bullying homófobo. ao saber que o garoto havia ele mesmo gravado um vídeo para a campanha “it gets better” de prevenção desse tipo de suicídio que virou um fenômeno nos eua – e podemos incluir na lista uma bela garota de 13 anos, hope, que se matou em 2009 depois que a tornaram a “vadia” da escola por conta de um sms que ela mandou pro garoto de quem gostava pagando peitinho –, nos perguntamos como então prevenir tais eventos. Por que a mensagem positiva da campanha não bastou nesse caso? o que mais pode ser feito, amplamente, para prevenir esse tipo de suicídio, esse tipo de sofrimento?
assim como o garoto não se matou porque era gay, mas porque não conseguia viver em paz em um meio tão homofóbico, devia estar claro que o motivo do suicídio da garota não foi sua sexualidade, não foi “seu erro” de ter enviado o sms sensual a um moleque, mas porque ela não conseguia viver em paz em um meio tão machista. As notícias de sua morte parecem confirmar que ela estava, em larga medida, certa em não ter comentado nada sobre o caso com os “adultos”, pois insistem em ligar o suicídio ao sms enviado e às tecnologias modernas disponíveis à menina que tomou uma decisão ruim, invés de ligá-lo ao comportamento agressivo dos colegas que a ridicularizavam. Então, em primeiro plano e mais evidentemente, o que deve ser feito a fim de prevenir esse tipo de tragédia é expor a inteligibilidade preconceituosa que a sustenta, como é a proposta do It gets better: é possível ser gay e ser feliz (e por óbvio que seja, no caso da Hope ainda engatinhamos, como sabemos; meninas ainda são ensinadas e cobradas a terem discrição e recato, até mesmo por quem lamenta a sua morte trágica, até mesmo em meios supostamente críticos).
e, sem menosprezar a dificuldade dessa tarefa mais evidente de questionar a racionalidade que apoia o bullying e justifica a vitimização da vítima (é gay e gay não presta, é vadia e vadia não presta), outra maneira de virar o jogo é questionar, mais ainda, a força que ela pode ter; mais que basear-se em falsas premissas e ser portanto mentiroso, o bullying pode ser inócuo desde que simplesmente não encontre respaldo onde mais precisa: na vítima. Melhor dizendo: esse tipo de abordagem dramática e solene, como o das webfeministas que choram a dor da intimidade invadida de scarlett johansson, participa da tendência a atribuir um poder mágico às palavras de ferir, como se falar fosse fazer acontecer: mas, por mais que o senso comum confunda a ambos e atrele o ato à fala, é preciso lembrar que há um intervalo entre eles, que o caráter profético de palavras como “você é uma aberração e deve morrer” – repetidamente ditas ao garoto suicida – não é necessário.
aqui, de certa forma, retornamos ao clima zombeteiro daquela música do abujamra, que diz que é mais fácil ser triste que alegre. Claro que a vítima não é inteiramente senhora do seu entorno e não pode, sozinha, criar para si uma alternativa inteiramente nova para a racionalidade que o bullying divulga; é preciso então mostrar que racionalidades alternativas existem – e o próprio ato de apontar o preconceito enquanto preconceito que é já o localiza e frustra suas pretensões universalizantes. E para além disso, cabe ver o mundo com mais leveza, na medida em que se admite não só a existência concomitante de outros modos de ver o mundo, além daquele no qual eu sou gay e gay não presta ou sou vadia e vadias não prestam etc, mas também que esse modo de ver que me desqualifica não é válido o suficiente pra mim, que eu me encontro em posição de poder suficiente para negá-lo, ou, ainda, que o agressor não se encontra em posição de poder suficiente para impô-lo a mim.
não se trata com isso de questionar as particularidades da scarlett johansson ou de cobrar que ela agisse com o bom humor do stallone – cujo gênero lhe dá muita vantagem na hora de dar de ombros frente a esse tipo de exposição. se trata de reconhecer que é possível a nós que façamos a scarlett e sigamos a vida, felizes.

Interessante….
“e o próprio ato de apontar o preconceito enquanto preconceito que é já o localiza e frustra suas pretensões universalizantes.”
quando eu disse que mesmo que vc se repita, há sempre algo de novo que surge, ou que ressurge de maneira mais clara e articulada, estava pensando nesse trecho. não é tão preferido quanto o “a gente ainda precisa comer muito feijão pra se comparar a ela, na alegria ou na tristeza”, mas é o que mais me interessou, hj, quando li seu post, pq a gente tem conversado sobre isso. a universalidade que o preconceituoso a um mesmo tempo pressupõe, defende e almeja encontra, por incrível que seja, respaldo nos discursos que intencionam defender as vítimas mas o fazem sem cuidar muito de suas análises e conceitos.
o rodeio de gordas e todo o tratamento conferido ao caso, eu acho, é um desses exemplos que ilustram bem o que vc sublinha como próprio da cultura americana; vi, com abundância, gente dizendo que a aversão às meninas gordas era um *sintoma* de uma sociedade doente, psicopata, cruel – e não um preconceito, uma característica, etc de um grupo de rapazes estúpidos e agressivos. dar ao preconceituoso o benefício de um mundo que lhe é cúmplice, e formular a partir daí uma crítica que cimenta a vítima no lugar de vítima (pois o mundo está de tal forma organizado que ela só poderá ser vítima, mais cedo ou mais tarde e para sempre desde então) é o primeiro passo em falso de quem quer, de alguma forma, tornar o mundo um lugar diferente e melhor naquilo que é possível.
excelente post, lindona
beijos ;)
“E para além disso, cabe ver o mundo com mais leveza, na medida em que se admite não só a existência concomitante de outros modos de ver o mundo, além daquele no qual eu sou gay e gay não presta ou sou vadia e vadias não prestam etc, mas também que esse modo de ver que me desqualifica não é válido o suficiente pra mim, que eu me encontro em posição de poder suficiente para negá-lo, ou, ainda, que o agressor não se encontra em posição de poder suficiente para impô-lo a mim.”
Duvido que os suicidios ocorram, em sua maior parte, porque a vitima concorde com o julgamento que a desqualifica, mas por exaustao e falta de amparo. A constante exposicao aaquilo eh uma agonia: criancas passam varias horas do dia, 5+ dias por semana sofrendo assedio que em muitos casos se tornam fisicos e nem sempre elas tem poder suficiente pra negar ou evitar a agressao. Se olhar a fundo, vai ver que a vitima certamente deve ter tentado se desvencilhar do ambiente negativo, procurando outras pessoas, pedindo ajuda em servicos educacionais ou aos pais em casa. Aconteceu comigo e com outros que eu conheco.
A coisa tem SIM que ser exposta como um crime severo contra as liberdades do individuo, uma covardia, ja que se trata de uma massa ressonante contra uma ou outra pessoa. A solucao deve ser objetiva e com foco no agressor: tem que haver punicao e exemplo. Sou contra a venda da vitimizacao como produto pelas midias, e muitas vezes acho as historias super-saturantes, mas a seu argumento causa a impressao de que uma mudanca de mentalidade por parte da vitima resolveria o problema, e soa como uma transferencia de responsabilidade ao meu ver indevida.
Amei tanto esse texto… Uns meses atrás, uma colega de escritório teve fotos nuas divulgadas por email pelo ex-namorado para TODOS os contatos dela, inclusive do trampo. Lembro bem que era segunda feira, e ela já estava um pouco atrasada, e a fofoca correndo solta no cafezinho. Daí ela chegou, de cabeça erguida e pisando super firme, E falou, bem alto, uma coisa mais ou menos assim: “Tenho que voltar para a academia, porque, caraca, eu tava GOSTOSA naquelas fotos.” E ponto. Foi só, porque né, ela DITOU o modo como a questão seria abordada.
Concordo com você Lu, não é, óbvio, o caso que exigir tal ou qual reação de uma vítima, acho que cada caso é particular, tanto por causa da história individual de cada um (olha o pleonasmo aí, gente), quanto pela agressão cometida (que acho que ninguém discorda, é agressão e ponto), mas sim que, há casos em que existe a possibilidade de destruir a condição de poder do agressor.
gostei bastante.
[...] que deveria, pelo menos, ser objeto de questionamento – se você não for do tipo que curte vitimizar a vítima, claro. [...]
http://www.utops.com.br/das-comidas-bizarras-e-bizarrices-comestiveis/
putz, curti, brigada.
como escreve gostoso de ler, esse pedro.