depois falam que não sou romântica
by lu
muito, muito tempo atrás, semanas, meses, nem sei mais, eu almoçava num restaurante gostoso quando percebi um cara mais gostoso ainda se sentando na mesa ao lado da minha, na cadeira que dava de frente pra mim e pra parede avermelhada que estava logo atrás de mim. sozinho na mesa, falava ao celular; cinquentão de belo porte, olhos vivos, convidativos, acho que já tinha me percebido antes mesmo que eu o percebesse, e eu sou bem esperta pra perceber belos cinquentões nos meus arredores. eu estava num almoço de trabalho com duas pessoas de trabalho bancando a trabalhadora, e por isso só sorri discretamente quando ele falou alguma piadinha engraçadinha para o celular olhando pra mim e parecendo despretensiosamente aberto à minha cumplicidade; estávamos nos entendendo ali, eu achei, e meu almoço ainda começava. mas ele nem comeu muito, só o vi tomar uma cervejinha, logo se levantou e foi pagar a conta no caixa, enquanto eu quieta-inquieta me dava conta de que nenhum dos meus planos mirabolantes que me ocorriam ali pra dar a ele meu cartão de visitas meu email meu telefone sem que ninguém mais percebesse me parecia ainda bom o suficiente para ser posto em execução. mas no seu caminho ao caixa ele pôde olhar pra mim mais demoradamente, e sorrir, e dar uma piscadela. sorriso e piscadela descompromissados, leves, pedindo nada – coisa de poucos segundos, mas que segundos mais ricos aqueles, com aquele sorriso e aquela piscadela melhores que muito beijo, e olha que beijo todo o mundo sabe o bom que é. eu pude retribuir muito discretamente, um olho no peixe outro no gato, quero dizer, nos dois figuras sentados na minha mesa, que distraídos que estavam não faziam nem ideia da minha paquerinha – o que eu sei dizer porque aquela gente sentada ali na minha mesa não teria a finura de, percebendo qualquer coisa, fingir que não percebe para não encher o saco com assuntos que não lhe dizem respeito; gente do trabalho com quem a gente almoça porque precisa e não porque escolhe, não porque um sorriso e/ou uma piscadela levaram a uma vontade e um convite felizmente aceito. e o cara gostoso foi embora assim mesmo, sem dar chances muito maiores do que o acaso já dá, e afinal parte do seu charme paradoxalmente se devia à despretensão de quem foi tomar uma cervejinha boa sem esperar nada de ninguém; as melhores refeições são de quem não está faminto e sabe que pode comer não por precisar mas apenas pela vontade e pelo desfrute. sorriso e piscadela, e aquele virou meu restaurante favorito, e aquele virou meu dia favorito, e eu de vez em quando ainda sonho acordada em encontrar esse cara gostoso de novo, que eu tenho certeza que a essa altura meus sonhos e desejos já embelezaram e perfumaram de maneira tal que se eu o encontrasse na rua possível que nem reconhecesse, ou melhor ainda, reconheceria só pelo perfume que eu atribuí ao olhar vivo dele, pouco importa se o mesmo gostoso ou um outro, de belo porte e boa disposição. depois dizem que eu não sou romântica, mas só um tonto pra não perceber o romantismo que pode haver em um boquete surpresa furtivo no banheiro em um dia de semana. quem dera.

a-do-rei, Lu!!! essa coisa do poder e precisar…. hahahahahaha possibilidades são o máximo! Beijocas!
Mas que momento muito bem descrito esse por vc!
Ri muito com as últimas linhas.
obrigada pelos comentários gentis, ana e enzot – beijos!
Quem me dera receber um boquete furtivo no banheiro em um dia de semana. O gostosão aí de cima não sabe o que perdeu…
ele pareceu esperto e deve saber, ele pareceu feliz e deve ter disso noutros ares, noutros momentos – todos temos nossos momentos; que essa semana seja boa conosco =)
Posso dizer? Seu texto foi um soco no meu estômago. Já passei por situações exatamente como essas, e sei como podem ser intensas. E peço aos céus, por favor, para me deixar longe, bem longe, dos coroas gostosos (por ser uma fedelha idiota e covarde que não pode ir contra).
É uma covardia a existência deles.
Oi Lu,
Tempão que não visitava o teu blog. Dei sorte :) era bem nesse tipo de post que eu curtia mais teu jeito de escrever.
Bjs,
L.
Oi, curti sua historia, muito legal. A propósito, onde é esse restaurante, hein? Rs, rs…
Beijos!
Achei muito interessante sua ideia de conhecer pessoas legais assim e confesso que fiquei excitado com o desfeche da sua historia.
Curti seu blog, esse foi um achado mesmo!
Beijos!