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por lu

numa entrevista com o luiz mott, um antropólogo militante pelos direitos lgbt, perguntaram quem era mais discriminado: a lésbica ou o gay. perguntinha besta, homofobia é sempre uma merda pra todos, mas enfim; ele respondeu sem pestanejar que era a lésbica. isso é consenso. e depois ele citou umas estatísticas dizendo como os gays apanham muito mais, são muito mais espancados, sofrem muito mais violência física por homofobia do que as lésbicas. como é consenso que as lésbicas são mais discriminadas, se é mais difícil sobreviver como gay às agressões homofóbicas?

esse consenso existe por causa da consciência de que vivemos numa sociedade, grosso modo, machista. e que portanto é mais complicado viver como mulher do que como homem, como lésbica do que como gay, e como trans masculino do que feminino (uma vez, é claro, que te percebem como trans, que o preconceito diz que são homens ou mulheres não-“autênticos”. assim, o trans masculino seria, na verdade, uma mulher.)

nossa sexualidade é engessada em gêneros, e cada um deles têm o seu lugar e o seu papel. os homens são mais donos de si, mais responsáveis por suas escolhas, mais capazes. eles respondem pelo que são. as mulheres, já comentei isso aqui antes em diversos posts, são aquelas que querem agradar ao outro, cujas escolhas estão sempre atreladas a outrém, visando algo externo à elas próprias; o homem transa pela sua satisfação pessoal, pelo seu prazer, enquanto a mulher transa pela companhia, pelo romantismo, pelo carinho, por interesse em algo que pode obter com a transa que está sempre para além do sexo por ele mesmo.

então, o que duas mulheres fariam juntas? oras, elas estão sendo sexy! todos sabem como é lindo duas garotas juntas; “os homens” adoram (e falo aqui dos homens enquanto categoria construída; nenhum homem em especial e todos os homens de modo geral). se elas estão se pegando, ali na sua frente, é porque estão provocando os homens, chamando-os, ou meramente enfeitando o lugar, contribuindo pra festa, pra deleite de todos. isso porque, retomando o conceito de existência que eu comentei no post anterior, a lésbica existe menos que o gay. se um homem fica com outro homem, ninguém duvida que ele seja movido por um desejo interno de fazê-lo para o seu próprio deleite. ele é gay e pronto. mas no imaginário popular, duas mulheres juntas são fetiche. nele, uma mulher que fica com outra mulher não o faz porque assim o quer, porque assim se sente bem; uma mulher, ao ficar com outra mulher, agrada aos homens, isto é, há um desejo hétero masculino que se sobrepõe ao desejo dela, que é ignorado, não entra em consideração; se existe, existe apenas enquanto desejo hétero de satisfazer aos homens, ainda que se trate de um personagem fictício que não existe na história.

mulheres abraçadas na rede, eua 1900porque em um mundo machista, falocêntrico e heterossexista, se tem dificuldade de entender que a vida e a sexualidade de uma mulher pode acontecer para ela, e não meramente apenas para os outros – seja para seus filhos (ainda que somente em potencial), seja para os homens e em função deles.

minha avó que mora numa cidadezinha do interior tem uma amiga muito querida há décadas. essa amiga mora com a sua “melhor amiga” desde antes de eu nascer. minha avó acredita piamente que são apenas amigas, e ninguém toca no assunto com ela; quando a fulana é convidada e vai aparecer, fica um clima na casa. o segredo é quase palpável. meus tios trocam olhares. eu me pergunto qual seria a reação da minha avó se eu perguntasse, o que eu não farei, mas imagino que ela negaria que são lésbicas. imagina, lésbicas!, aqui no meu bairro!

em 1995, teve uma conferência das nações unidas em beijing. o vaticano, como sempre, se impôs o quanto pôde (e sempre pode muito); não vou entrar em detalhes sobre o diálogo que se travou entre ele e feministas, mas o fato é que, no âmbito da linguagem, por fim a palavra gêneros pôde ser usada, mas “lésbica” só poderia aparecer entre aspas (é uma ameaça à maternidade, segundo o vaticano). as aspas sinalizavam que não havia consenso sobre o uso do termo, que era um âmbito contraditório. o termo acabou sendo abolido; para designar a lésbica, falavam em “o outro estado”. aquele, o inominável, o que não pode ser dito. em protesto, pessoas usaram camisetas com “lésbica” escrito entre aspas. paradoxalmente, a lesbianidade acabou ganhando mais visibilidade, diante dessa tentativa de escondê-lo; mas nem toda e qualquer visibilidade nos é proveitosa.