mulher entra de graça

por lu

ficando com mulheres, nunca fui hostilmente discriminada, a princípio. uma vez, no cinema, o cara sentado ao lado da minha então namorada começou a se masturbar. era a primeira vez que saíamos; estávamos só de mãos dadas, e tivemos de mudar de lugar pra ver o filme em paz. faz sentido nessa lógica machista que eu comentava: se nós estávamos lá, era o direito dele gozar com isso. ele não teria que se mancar de que nós temos o nosso espaço ali e que o desejo dele não deve ser externalizado e imposto. uma amiga minha passou pela mesma situação, quando tinha uns 13 anos, sem ficar com ninguém; era barraqueira e saiu berrando, gritando lições de moral. aposto como ele não esperava isso. eu própria noutro dia tive que mudar de assento no cinema porque o desconhecido sentado ao meu lado começou a se roçar em mim inapropriadamente; em ônibus, perdi a conta de quantas vezes isso me aconteceu. Numa concepção machista de mundo, a existência das mulheres é para os outros, elas não se pertencem. então, a menos que tenha um homem ao seu lado reclamando sua posse, elas estão sujeitas a esse tipo de coisa.

sempre que eu estou com alguma garota, um grupo de idiotas forma uma roda no nosso entorno pra ficar babando, como se estivessem no seu direito – até em algumas casas gays isso acontece, e não raro eles chegam perto demais; parece que tem cara hétero que só vai pra isso. Eu sei de uma festa onde seguranças musculosos são orientados a ficar de olho nesses idiotas e botá-los pra fora se eles atrapalharem – deixe as meninas em paz. Porque o imbecil precisa de um fortão que o diga? não é óbvio? não seria uma questão de decoro, respeitar nosso espaço, perceber que não estamos dando um show? Um dia, maridão voltava do banheiro e teve que abrir espaço entre a rodinha de imbecis que se espremiam pra me ver com minha amiga; um deles olhou pro maridão e sorriu balançando a cabeça e apontando pra nós, com cumplicidade. quando maridão franziu o cenho puto e veio se juntar a nós, o cara tomou um choque e foi embora. uma vez, enquanto eu beijava uma garota, algum idiota tirou fotos. nós percebemos os flashes e olhamos em volta, bravas, eu pronta pra dar uns empurrões no cretino; mas o cara disfarçou e não vimos quem foi.

já comentei como, em filmes pornôs lésbicos, as mulheres raramente convencem, muito diferentemente do tesão genuíno mostrado em filmes pornôs gays. Os homens têm seu tesão no que estão fazendo, estão focados e fazem o que fica parecendo mesmo que é feito pra lhes dar prazer; as mulheres costumam se comportar como se seu tesão fosse para o outro, e fazem coisas que nem sempre parecem espontâneas e em prol do próprio gozo – como lamber um vibrador fazendo biquinho pra câmera, por exemplo.

é também impressionante o tanto de desconhecidos que vêm puxar papo; as mulheres são acessíveis, na leitura popular. Por um lado, pode ser bom; as pessoas parecem ter uma simpatia automática. já fiquei de amassos em cinema de shopping, apaixonada que estava, na sessão lotada do sábado, ao lado de um casal de velhinhos; quando percebi que eles estavam logo ao nosso lado, olhei pra sentir se eles estavam se incomodando, preocupada em não criar situações desagradáveis. e a mulher do casal, então, de cabelinhos brancos, olhou pra mim de volta e sorriu docemente. um casal de belas garotas, jovens e femininas, não é ameaçador. Por outro lado, já perdi a conta de quantas vezes algum inconveniente atrapalhou meu namoro, e nem sempre é um atrapalho inocente.

vejam a foto que uma reportagem da NBC sobre a política de emissão de certidões de nascimento para filhos de lésbicas publicou. colocaram uma foto onde duas mulheres nuas e maquiadas estão deitadas numa cama, e ambas olham para a câmera, com cara de convite. a reportagem é séria, o assunto não tem nada a ver, mas as lésbicas foram sexualizadas, reduzidas a uma fantasia masculina. é como a bunda da simone de beauvoir na capa da revista francesa. isso é não ter existência autônoma: não importa que a mulher seja uma grande pensadora da contemporaneidade e seja relevante por isso, sendo mulher ela é anunciada como a mulher do sartre ou como uma bela bunda. é como se isso fosse tudo o que uma mulher pudesse ser: um deleite pros outros.