um é pouco, dois é bom…

por lu

a maioria das pessoas, por mais que esteja apaixonada, que esteja bem e adorando aquele pra quem jurou amor eterno, vai, vez ou outra, mais ou menos intensamente, mais ou menos frequentemente, querer ficar com outras pessoas. e não há receita pra lidar com isso: esse desejo é tão comum e corriqueiro quanto é negado pelo arranjo padrão vigente da sexualidade, que a organiza em casais monogâmicos, e insiste em vincular sexo com reprodução. Não há nenhuma razão necessária ou lógica nesse arranjo arbitrário do núcleo familiar – por que o casal é composto por dois? por que o meu desejo por outra pessoa afetaria meu desejo pelo meu parceiro? por que o tesão (ou a paixão, etc) por um seria incompatível com o tesão (ou paixão etc) por outro, e não, por exemplo, complementares, ou mesmo absolutamente distintos? no que interfere? Interfere na medida exata em que a pessoa com quem se está se sente traída pelo desejo que o cônjuge têm por outras pessoas quaisquer. mas no que se baseia esse sentimento de traição, qual sua justificativa, senão no fato de que é um costume?

algumas vezes vi gente manifestar ciúmes de famosos. outro dia maridão comentou que a shakira é gostosa; o cara na hora olhou espantado e comentou, nossa, se eu falar isso na frente da minha mulher ela me bate. entendo que é uma convenção, mas é estranho: a mulher imagina que o cara acha que só ela é gostosa no mundo inteiro? ela acredita nisso, ou se deixa enganar? ela quer um cara que a ache gostosa, que aprecie isso nela, mas só nela? e ela acha que isso é possível? no que o fato de ele reconhecer que outras mulheres são também gostosas atrapalharia o relacionamento dos dois? ainda mais no caso de alguém que ele sequer conhece e provavelmente nunca vai passar nem perto – e que é, notoriamente, uma gostosa. e a mulher do cara, no caso, não acha mais ninguém gostoso? ou acha e sente culpa e tenta ignorar? ou quando é ela que acha, tudo bem, só o outro que não pode? ou ela se engana quanto a isso também, achando que nem ela nem ele vão nunca perceber beleza em mais ninguém a não ser um a do outro? e por que cargas d’água isso seria o ideal?

eu tenho a impressão de que muitos casais resolvem essa questão delicada com um acordo tácito: até se fica com outras pessoas, desde que acobertando ao máximo para que o outro nem desconfie. é arriscado, mas as pessoas colocam o coração na reta porque, como todos sabemos, é bom achar aquela uma pessoa que amamos e de cuja vida participamos, e que por sua vez testemunha nossa vida e a valoriza – e por outro lado, é bom variar o cardápio e flertar e ficar com outras pessoas também. Mas aprendemos que essas duas coisas são conflitantes e que devemos fazer essa escolha ingrata: ou um ou outro.

daí vira um jogo: grosso modo, eu não deixo que meu parceiro(a) fique com outras pessoas, porque tenho ciúmes – e às vezes nem tanto, mas é assim que funciona -, mas eu mesmo, ainda que o ame e o queira, quero também outras pessoas – no que sou frustrado, porque há o controle do meu parceiro que tem ciúmes, ainda que queira outras pessoas… Via de regra, todo o casal têm que lidar com o desejo que se sente por outras pessoas, externas à relação. Oras, tem gente que não gosta de sexo (é uma minoria, mas acho até que é mais do que a gente pensa) e que não vai ter tesão em outras pessoas, mas tampouco vai ter muito tesão pelo cônjuge também. (pelo que vi, essas pessoas se dão bem se namoram alguém parecido com elas, igualmente de pouca libido, assim o ritmo é parecido e ninguém se sente indesejado ou insatisfeito. a dificuldade, claro, é achar outro desinteressado da coisa mais interessante do mundo.) E, como tem de tudo nesse mundão, tudo mesmo, tem até quem tenha tara em trepar com o parceiro fixo, com o marido ou a esposa. eu desconfio que esses devem ser os maiores pervertidos da história.

mas a organização social da sexualidade dessa maneira específica é contingente e arbitrária; convencionou-se que os casais se organizam em dois, que o tesão e o desejo são exclusivos, que se você está num relacionamento não pode transar com mais ninguém, que o desejo do seu cônjuge por outras pessoas te fere e desrespeita. o ciúmes, mais que tolerado, é enfatizado e até celebrado, como se fosse manifestação de amor! oras, todos ocasionalmente já sentimos vontade de, por exemplo, matar alguém, mas todos sabemos que devemos segurar a onda quando nossos ímpetos homicídas nos fazem imaginar uma bigorna em queda atingir o crânio do janjolão. já o ciúmes, não somos ensinados a controlar, pelo contrário – alguns escândalos por ciúmes são até benvindos. tem homens que se sentem tão à vontade para agir no seu ciúmes que chegam a matar as esposas ou namoradas, no que, não por acaso, se convencionou chamar de crimes passionaise são legimitados e têm simpatia. mas eu não pretendo entrar em questões de diferenças de gênero nesse post.

só queria dizer que, ainda que pareça fixo, necessário e imutável, essas coisas são negociáveis.