sexo não é estupro, xaveco não é ameaça.

por lu

eu tava andando sozinha, à noite, num lugar meio vazio, estranho pra mim, com pressa e meio desconfiada; tinha estacionado o carro longe, estava com a chave na mão e a mão no bolso, com medo de assalto. tinha um atalho, uma passagem escura entre prédios por onde só iam pedestres. queria chegar logo e arrisquei passar por lá, no meu passo rápido e atento. então, alguém começa a me chamar, falando comigo: Oi! psiu, psiu, ei – eu ignoro e continuo andando como se não fosse comigo – oi, você, espera, oi, psiu, um minuto, volta – continua, numa voz amigável e convicta. só tinha eu naquele beco; por fim, parei e olhei pra trás. Era um rapagão simpático, nos seus 30 e poucos. veio cheio de conversa e sorrisos. falei, incomodada, você está me confundindo com outra pessoa, mas ele não ouvia, continuava falando, me pedindo meu telefone, sorrindo, puxando papo e chegando perto – eu me afastava, ele aproximava mais, eu me afastava mais, ele aproximava mais ainda. só eu e ele naquele beco horroroso.

eu gosto de mulherengos tarados xavequeiros, gosto de ser abordada, levo numa boa, e acho que quem sabe o que quer pode ser audaz. Mas existe uma diferença enorme entre sedução e intimidação; o cara foi agressivo, porque estava se impondo e permaneceu completamente alheio aos meus sinais. se você se interessa pela pessoa, você a percebe, a olha, está atento às reações dela. nessa circunstância, por exemplo, eu poderia parar de andar, olhá-lo nos olhos, sorrir, dar atenção; outra coisa é continuar andando, se afastar, dizer não, os olhos procurando a rota de fuga, alguém que pudesse ajudar. fiquei assustada; pelo jeito dele, tive a impressão de que, se eu não me afastasse, ele não pararia de se aproximar. mais que insistente e incisivo, ele foi ameaçador, invasivo, impositivo – e era um cara bonito, bem-apessoado. talvez até fosse sincero no seu arrebatamento.

É isso o que me incomoda nessa paranóia generalizada anti-assédio sexual nos eua: xaveco não é assédio, é ou algo bem divertido, ou neutro – não pode ser crime entre dois adultos. não há motivo pra pressupor uma carga negativa a priori na sedução. precisa de um ambiente muito machista pra confundir xaveco dos homens com agressão contra as mulheres, e carimbar todo xaveco masculino como uma violência. já escrevi sobre como, numa lógica bem machista, sexo e estupro se confundem; o princípio é o mesmo. só outro dia que eu vi que um político da inglaterra, nick eriksen, falou que estupro é um mito que as feminazis inventaram: que é um absurdo que seja considerado um crime grave, porque estupro é simplesmente sexo. Mulheres gostam de sexo, então estupro não pode ser uma provação física tão terrível. Sugerir que estupro, quando feito sem violência [sic], é um crime sério, é como sugerir que obrigar uma mulher a comer um chocolate é um ataque hediondo. É mais inconveniente para uma mulher ter sua bolsa roubada. Ano passado, quando essas declarações vieram à tona, a carreira política desse cara foi sepultada. ainda assim, é chocante que ele o tenha dito, e é uma fala que pontua um pensamento machista que nem sempre é dito assim tão claramente. se ele acha que estupro pode ser feito sem violência, que violência é bater, e estupro é transar, é porque sexo e estupro confundem-se num mundo machista onde toda atividade parte do homem, e a mulher é irremediavelmente condenada à passividade, inteiramente reduzida à sua função feminina de receber e cuidar, receptáculo opaco do qual nada emana, no qual a vontade é impressa – e vontade é sempre masculina. se há alguma, a única vontade que presta à mulher lhe é atribuída de fora pra dentro – que ela aceita como aceita seu destino, porque aceitar é sua essência – e é a de receber, ela que é apenas lócus receptor por excelência dos desejos e anseios (masculinos).

mas mulher também é gente, e, tão óbvio quanto, sexo e estupro são coisas completamente diferentes – assim como sedução e intimidação. confundi-los é erro próprio de ambientes machistas. trepar e xavecar não são atividades solitárias – é um diálogo, precisa de pelo menos dois participantes envolvidos. flertar não é ameaçar, não é se impor a partir de uma posição privilegiada de autoridade; é uma proposta, uma pergunta, uma sugestão, uma abertura.

tem mais coisa que eu quero dizer sobre estupro e sociedade; continuo depois.