sexo não é estupro, xaveco não é ameaça.
por lu
eu tava andando sozinha, à noite, num lugar meio vazio, estranho pra mim, com pressa e meio desconfiada; tinha estacionado o carro longe, estava com a chave na mão e a mão no bolso, com medo de assalto. tinha um atalho, uma passagem escura entre prédios por onde só iam pedestres. queria chegar logo e arrisquei passar por lá, no meu passo rápido e atento. então, alguém começa a me chamar, falando comigo: Oi! psiu, psiu, ei – eu ignoro e continuo andando como se não fosse comigo – oi, você, espera, oi, psiu, um minuto, volta – continua, numa voz amigável e convicta. só tinha eu naquele beco; por fim, parei e olhei pra trás. Era um rapagão simpático, nos seus 30 e poucos. veio cheio de conversa e sorrisos. falei, incomodada, você está me confundindo com outra pessoa, mas ele não ouvia, continuava falando, me pedindo meu telefone, sorrindo, puxando papo e chegando perto – eu me afastava, ele aproximava mais, eu me afastava mais, ele aproximava mais ainda. só eu e ele naquele beco horroroso.
eu gosto de mulherengos tarados xavequeiros, gosto de ser abordada, levo numa boa, e acho que quem sabe o que quer pode ser audaz. Mas existe uma diferença enorme entre sedução e intimidação; o cara foi agressivo, porque estava se impondo e permaneceu completamente alheio aos meus sinais. se você se interessa pela pessoa, você a percebe, a olha, está atento às reações dela. nessa circunstância, por exemplo, eu poderia parar de andar, olhá-lo nos olhos, sorrir, dar atenção; outra coisa é continuar andando, se afastar, dizer não, os olhos procurando a rota de fuga, alguém que pudesse ajudar. fiquei assustada; pelo jeito dele, tive a impressão de que, se eu não me afastasse, ele não pararia de se aproximar. mais que insistente e incisivo, ele foi ameaçador, invasivo, impositivo – e era um cara bonito, bem-apessoado. talvez até fosse sincero no seu arrebatamento.
É isso o que me incomoda nessa paranóia generalizada anti-assédio sexual nos eua: xaveco não é assédio, é ou algo bem divertido, ou neutro – não pode ser crime entre dois adultos. não há motivo pra pressupor uma carga negativa a priori na sedução. precisa de um ambiente muito machista pra confundir xaveco dos homens com agressão contra as mulheres, e carimbar todo xaveco masculino como uma violência. já escrevi sobre como, numa lógica bem machista, sexo e estupro se confundem; o princípio é o mesmo. só outro dia que eu vi que um político da inglaterra, nick eriksen, falou que estupro é um mito que as feminazis inventaram: que é um absurdo que seja considerado um crime grave, porque “estupro é simplesmente sexo. Mulheres gostam de sexo, então estupro não pode ser uma provação física tão terrível. Sugerir que estupro, quando feito sem violência [sic], é um crime sério, é como sugerir que obrigar uma mulher a comer um chocolate é um ataque hediondo. É mais inconveniente para uma mulher ter sua bolsa roubada.“ Ano passado, quando essas declarações vieram à tona, a carreira política desse cara foi sepultada. ainda assim, é chocante que ele o tenha dito, e é uma fala que pontua um pensamento machista que nem sempre é dito assim tão claramente. se ele acha que estupro pode ser feito sem violência, que violência é bater, e estupro é transar, é porque sexo e estupro confundem-se num mundo machista onde toda atividade parte do homem, e a mulher é irremediavelmente condenada à passividade, inteiramente reduzida à sua função feminina de receber e cuidar, receptáculo opaco do qual nada emana, no qual a vontade é impressa – e vontade é sempre masculina. se há alguma, a única vontade que presta à mulher lhe é atribuída de fora pra dentro – que ela aceita como aceita seu destino, porque aceitar é sua essência – e é a de receber, ela que é apenas lócus receptor por excelência dos desejos e anseios (masculinos).
mas mulher também é gente, e, tão óbvio quanto, sexo e estupro são coisas completamente diferentes – assim como sedução e intimidação. confundi-los é erro próprio de ambientes machistas. trepar e xavecar não são atividades solitárias – é um diálogo, precisa de pelo menos dois participantes envolvidos. flertar não é ameaçar, não é se impor a partir de uma posição privilegiada de autoridade; é uma proposta, uma pergunta, uma sugestão, uma abertura.
tem mais coisa que eu quero dizer sobre estupro e sociedade; continuo depois.

Lu, que medo! Ainda bem que não aconteceu nada. Sabe, me incomoda isso dos caras aqui mexerem com a gente na rua. Geralmente é de modo bem grosseiro. E eles ainda ficam espantados quando a gente manda pra pqp. Pq eles acham que a gente tem que aceitar o xaveco, é como se eles estivessem no fazendo um favor de mexer com a gente. Me sinto muito mal quando isso acontece. É muita falta de respeito. Sabe, um bom xaveco claro que agrada, mas é difícil isso acontecer.
Agora, estou chocada com a declaração do político inglês. Isso é uma demonstração de falta de respeito com as mulheres. Que cara podre. Realmente ele encara a mulher apenas como uma ferramenta para o homem satisfazer seu desejo sexual. Afe. Triste.
Beijos e cuidado ao andar sozinha por aí!
Eu tô boba com minha memória hoje; acabei de comentar no blog da marjorie que -ao lê-la – acabei me lembrando de um ‘maldito jovem senhor’ batendo punheta do meu lado, no fundo de um ônibus circular…E eu tinha só 13 anos!
Tô possessa hoje….
Hoje estou com raiva e nojo dos homens, além de estar menstruada e com mega cólica. Se eu pegasse esse maldito inglês hoje, socava a cara dele sem dó.
Lu, desculpa a agressividade…. Pra você só deixo meus beijos mais gostosos…
quando você escreveu o post sobre assédio sexual nos EUA, não entendi direito o que você estava querendo dizer. com este post, fica tudo mais claro, eu acho. é super importante fazer uma distinção entre sedução e intimidação. e eu acho que o que rola com alguns homens é que eles aprendem que intimidação É sedução. e mulheres também, aliás. a paquera heterossexual é TÃO diferente da paquera entre gays, e entre lésbicas…
e eu estava pensando sobre a sedução. porque eu conheço um cara que lê sobre fórmulas para a sedução (tipo isso: http://atitudedehomem.com/escala-puas), e pratica. e isso me incomoda demais, em parte porque é meio que reduzir as mulheres a troféus. e eu não sabia que tinha muita gente que praticava essas coisas, e ainda mais no Brasil.
– marion,
é, deu medo, na hora e especialmente logo depois, meus joelhos tremiam quando saí de lá! mas até tinha umas pessoas e acho que o cara só era um folgado mesmo, sem muito simancol. acho que algumas mulheres se sentiriam felizes com abordagem dele… eu pelo menos já vi cada “xaveco” dar certo, inclusive com as minhas amigas!, que nem digo nada.
pode deixar que eu tomo cuidado!
beijo beijo
– vanessa,
hah, te entendo, comigo também aconteceu de lembrar de episódios desse tipo que eu tinha esquecido completamente. eu estou ficando cada vez mais convencida de que os homens respeitam muito menos meninas mais novas; lembrando, eu venho sendo cada vez mais respeitada, e acho que é principalmente porque os idiotas folgam mesmo pra cima de meninas novinhas. talvez eles imaginam que elas não vão saber se defender, sei lá, exercem melhor seu poder… gente se masturbando do meu lado me aconteceu já, eu tinha uns 19, 20 anos, no cinema. ódio, ódio mortal – e ao lado de uma garota de 13 anos, nossa, mais ódio ainda.
toma um chazinho quente, põe uma bolsa térmica… se cuida, tá?
beijos!
– astrocat,
hé, é mesmo, só com esse post que eu consegui esclarecer como isso é parte de uma dinâmica machista. e eu nem ia escrever sobre isso, quando comecei a escrever hoje estava pensando em outro post!
o foda é isso: homens e mulheres aprendem que é assim que se paquera/ é paquerada. muita gente – homens e mulheres – confunde uma atitude de paquera com uma de intimidação, e confundem sexo com estupro. fica muito fácil se machucar assim – ou machucar o outro.
HAHAHAHAH “ATITUDE DE HOMEM.com – Como atrair e conquistar lindas mulheres”! ai, que idiota.
é engraçado essa caricatura do mundo, como se tudo o que as pessoas fizessem fosse pra atrair o sexo oposto. tudo o que mulheres querem são homens e vice-versa! só q homens querem ser populares com as mulheres enquanto as mulheres querem achar *o* homem. affff. e ainda falam como se as mulheres só gostassem da caricatura do homem confiante à la Johnny Bravo e nunca transassem com o desastrado inseguro. caricaturas ambulantes – quem acredita nisso, na boa, merece…
Há 3 anos, quando eu tinha 16, passei por tentativa de estupro por uns 4, 5 caras em uma festa. É uma longa história, mas no fim, não aconteceu, graças a Deus.
Mas fiquei traumatizada em relação a algumas coisas e entre elas, medo de andar na rua a noite e não por causa de assalto (assalto é uma coisa que nunca tive exatamente MEDO, embora eu seja do Rio) e sim pq aquele clima da rua a noite, o perigo e tal, sempre me dava a impressão de que a qualquer momento alguém pudesse chegar e me atacar.
Pq, msmo tendo sido “apenas” tentativa de abuso, o que fica é a eterna sensação de que somos vulneráveis, de que não temos direito sobre o nosso próprio corpo, que alguém mais forte consegue ter o poder sobre ele. E essa sensação é terrível, pq fere meus direitos como mulher, me sentir mais fraca, e fere mais ainda quando eu sei que outras pessoas pensam assim, pq eu não lembro de caso de desconhecido abordar homem na rua pra estuprar.
Eu não PENSO isso, de que sou mais fraca por ser mulher, tanto que até chegar ajuda, eu resisti sozinha a 4, 5 bombados, lutei tanto que quando acabou, desmaiei pq tinha usado todas as minhas forças. MAS, eu SINTO isso e daí não depende de mim, já é do trauma, eu me sinto vulnerável na rua pelo fato de ser mulher e sei que existem pessoas por aí que acham que tem direito sobre meu mim e exatamente pq sou mulher. E, no fundo, eu sei que se não chegasse ajuda, alguma hora eles conseguiriam, estavam em número maior. Msmo sabendo disso a gente luta o máximo né, pq tá ali defendendo a nossa dignidade, eu sempre disse que pra me estuprar, a pessoa teria que me matar primeiro e naquela hora eu vi que não dizia da boa pra fora, era o que eu tava fazendo e faria de novo caso se repetisse.
Mas, depois de tudo, a gente se sente o lixo dos lixos, inferior, sente o máximo do constrangimento. Sente como se algo tivesse sido roubado de vc e vc não sabe identificar exatamente o que é, só sente que tem um pedaço faltando.
Eu fico imaginando se tivesse chegado até o estupro, como eu teria ficado.
Depois disso eu passei a ter medo e certo nojo de qualquer homem. Eu já era bisexual antes disso (na verdade, sou desde que nasci né, mas quis dizer que já sabia que era bi, já tinha ficado com garotas e tal), mas depois eu só conseguia ficar com mulheres (acho que fiquei com uns 2 homens depois, mas a sensação foi péssima). Vídeo pornô hetero passou a me incomodar DEMAIS, principalmente pq a maioria desses mais comuns colocam essa coisa da dominação do homem etc.
E o mais confuso ainda é que eu sabia que continuava GOSTANDO de homem, os que eu achava atraentes continuavam me atraindo, mas não me interessava realmente (confuso rs), tinha sido criado o bloqueio. Isso só foi curando quando conheci um amigo especial, acabei me apaixonando por ele e aí ele me fez acabar voltando a me interessar por algum cara, ele me devolveu a parte roubada, que tava faltando. A história ainda não terminou e é mais complicada ainda hehe, mas enfim, ele foi responsável por isso e nem imagina nada.
E há mto tempo não me revoltava tanto lendo alguma coisa como quando li agora essa declaração do político. Essas coisas me ferem diretamente e me deixam com mta raiva, mta msmo haha.
Ah, eu conto isso tudo aqui pq me sinto bem contando, espero que tu não se sinta “mal”, “constrangida”, sei lá, tem gente que fica meio desconfortável lendo, talvez com pena, mas espero que tu não fique, contei aqui sem problemas, pq o blog e vc me fazem me sentir a vontade com isso hehe :)
e que texto enooorme eu escrevi hahaha
nossa, nina, que comentário lindo. obrigada demais por tê-lo escrito. não só por contar a sua experiência, o que também é legal, mas pelo modo como você a contou e as reflexões que você fez a partir disso, que são ótimas. eu passei por três situações em que me vi fugindo da possibilidade de ser estuprada; aos 11, aos 14 e aos 18. foram caras que me perseguiram, dois desconhecidos e um conhecido. e eu pensava exatamente assim: vai ter que me matar primeiro, FDP. hoje já não penso mais assim, e também já não tenho mais tanto medo de estupro quanto tive na adolescência. embora seja sempre uma possibilidade para a qual a gente tem que estar atenta, infelizmente; somos mesmo vistas como vulneráveis por estupradores em potencial… e eles são muitos, mais do que se pensa. eu acho que você ter se livrado do estupro nessa situação – sem jamais atribuir culpa às mulheres que não conseguem se livrar – é um mérito seu. é inteligência emocional sua, também, uma força sua.
obrigada mesmo pelo comentário, lindo demais e inspirador :*
Nina, embora costume ter reservas em relação a exposições públicas de temas tão pessoais e duros como o teu, não tenho como deixar de querer solidarizar-me com você.
Explico quais as minhas reservas. É que em boa parte das vezes, quando o que se busca ainda é um efeito catártico, libertador, uma tentativa de enfrentar os fantasmas e traumas de determinadas experiências, essas exposições públicas perdem parte do efeito pretendido simplesmente por não estarem diante da “plateia” ideal (ou ao menos pretensamente ideal), isto é, pessoas mais significativas para você — sejam elas amigas, parentes, profissionais psi, grupos de apoio etc. O resultado é que depois desse esvaziamento inicial, que não deixa de ter seu lado bom, o vazio que sobra “pede” para ser compreendido, trabalhado, algo que o desabafo por si só dificilmente dá conta, pois fica muito aquém da necessária e desejada elaboração daquela experiência, uma busca de reparação. E o complicado é que depois de um tempo tendemos a repetir essa mesma exposição em foros que não são os ideais para a mínima elaboração dessa experiência.
Essas são as minhas frequentes reservas, mas não tenho como saber se elas se aplicam a você. Além de não te conhecer, o teu relato sugere (a mim, que fique claro) que boa parte do que te aconteceu já está razoavelmente resolvido — “me sinto bem contando”, foram as tuas palavras —, e que falar sobre isso já não arranca tanto pedaço, por assim dizer. Mas insisto, não tenho como avaliar o que ainda se passa contigo. E insisto também em solidarizar-me com você, considerar vergonhoso, verdadeiramente abjeto que pessoas ajam da forma covarde e inaceitável como aqueles sujeitos que tentaram abusar sexualmente de ti.
Com apreço,
Ricardo
Caraca que imbecil esse político!
Chega a ser revoltante!
Como alguém pode pensar isso?
Estupro sem violência? HOW!?!?!?! Absurdo demais!
Espero sinceramente que a carreira dele tenha terminado mesmo!
Caraca Nina! Impressionante a sua história!
Que bom que você conseguiu evitar o esturpo e melhor ainda que esse seu “amigo” conseguiu com que você superasse o trauma!
Parabéns!
“trepar e xavecar não são atividades solitárias – é um diálogo, precisa de pelo menos dois participantes envolvidos. flertar não é ameaçar, não é se impor a partir de uma posição privilegiada de autoridade; é uma proposta, uma pergunta, uma sugestão, uma abertura.”
Um dos graves problemas da atualidade é que são tempos de monólogos travestidos de diálogos, com muita gente gritando ao mesmo tempo, o que resulta em que poucos ouvem o que o outro, qualquer outro, diz. Chato, muito chato isso…
Beijão, sempre atento as palavras que ouço — é, “ouço” me agrada mais — por aqui.
– eudu,
é, o cara é louco. realmente, se “estupro é sexo”, ou todo o sexo é violento ou estupro não é violento – ele foi na segunda. acho que ele imagina que um estupro só é violento quando o cara bate na mulher, quando ela tem que ir pro hospital. é, vai ver pra ele quem sofre violência precisa de um hospital…
idiota. não sei o quanto exatamente ele se fodeu quando essas declarações vieram à tona, mas sei que o mundo só ouve falar dele por causa delas, haha. espero que até como funcionário do Mc Donald’s ele tenha dificuldade pra trabalhar!
– ricardo c.,
engraçado, não vejo como na atualidade as pessoas se escutem menos do que antes; acho que as coisas, por mais que ainda estejam ruins, têm melhorado…. eu *insisto* em botar fé na humanidade, hahaaha.
beijão!
Que nojo que dá de depoimentos como esse. A vontade que dá é de mandar prender um cara por dizer isso. O que me alivia são os bons exemplos masculinos que tive a vida toda, sério mesmo, pq acho tão dificil conviver com essa dinâmica, esse comportamento é incompreensível pra mim. É tudo tão desigual.
é, eu também pensei nisso na hora, tinham que jogar esse cara no xilindró – quero ver se ele não ia mudar de opinião sobre o estupro depois que ele virasse a diversão do presídio e a felicidade dos amigões presidiários, hahahahaha.
Lu, como você, também não creio que hoje em dia as pessoas escutem menos do que antes, e nem saberia dizer que “antes” seria esse. O único que destaquei foi o nosso tempo, onde dá pra ver que há muitas falas — o que é ótimo —, mas em que boa parte delas se dá aos gritos, sem necessariamente buscarem o diálogo. É bom ter o direito de dizer, e poder exercer esse direito. Mas só dizer, sem refletir sobre quem vai ouvir o que digo, é muito pouco, ou, na melhor das hipóteses, é só o início de um possível diálogo. Mas se eu só estou disposto a ver o outro como plateia muda, ou então a conversar com quem já sei que concorda comigo, isso no máximo será um bate-papo com o nosso espelho, não?
(Lembra do último conto que escrevi lá na Ágora, chamado “Amigo“? Um dos protagonistas precisa amordaçar o outro para tentar garantir que fosse ouvido, algo que momento algum dá para chamar de diálogo, né?)
Prefiro apostar no diálogo, especialmente um que não seja de surdos. Um diálogo como esse que você defende muito bem no seu post, necessário até para um bom xaveco. :-)
ah, tá, agora entendi o que você disse.
é curioso isso, porque ao mesmo tempo se a gente conversa com quem tem premissas em comum, a conversa pode ir mais longe. penso por exemplo nos meus posts sobre aborto ou preconceito; eu não tenho a menor pretensão de doutrinar “pró-vidas” ou preconceituosos, não tenho o menor interesse em conversar com essas pessoas – talvez seja o diálogo surdo que você diz. não sei, porque eu ao mesmo tempo considero os argumentos – mas só para destrinchar e entender qual seria a lógica por trás dessa proibição, porque nunca que um padre vai me convencer, por ex.. Tudo o que eu escrevo aqui no blog tem um público bem delimitado, que são as pessoas que eu entendo que têm base comum, que eu quero escutar e com quem quero dialogar; de resto, que se explodam.
mas pensando globalmente, eu vejo mais diálogo do que jamais teve; inclusive inter-religioso, ocidente-oriente, inter-cultural. o mundo está pequeno com a globalização e isso propicia mais conversa; ainda que não seja um super diálogo ideal e respeitoso, se é confrontado com o outro… ih, agora não sei se eu te entendi bem ainda dessa vez não, desculpa rs
[…] também) — de experiências pessoais trágicas, traumáticas. Transcrevo parte do que escrevi no post da Lu: Explico quais as minhas reservas. É que em boa parte das vezes, quando o que se busca ainda é um […]
Lu
De nada, tá meio confuso mas ok ahaha.
Então, viu só, vc tbm já passou por situações assim. Acho que o número que mulheres que um dia se viu diante de uma situação dessas – sem importar a “gravidade” – é mto maior do qu se pode imaginar. Do que se tem registro, então…
Uma parte que vale lembrar (não sei se é a parte que vc disse que tá faltando) é que mta gente logo atribui a culpa a mulher que foi vítima. E mtas tbm acabam se sentindo culpadas… Eu acabei me sentindo culpada tbm, por bobeira, e hoje nem sinto mais, e a minha terapeuta disse que TODAS as mulheres vítimas de alguma violencia sexual se sentiam culpadas.
Ricardo
Obrigada pelas palavras, e eu já trabalhei bastante isso na terapia… Durante mto tempo afetou mto a minha vida e tive que trabalhar bastante msmo.
Desabafar com pessoas próximas ainda é difícil pq eu sei que não consigo me controlar pra não chorar e tal, e nem na internet saio contando assim. De acordo com a situação eu me sinto a vontade ou não, e aqui sinto :)
não tá nada confuso, dá pra entender perfeitamente e tá aliás bem didático até.
aqui é um espaço onde a ideia é essa mesmo, acolher esse tipo de discussão – imbecis não têm lugar aqui ;)
não é isso que eu tou pensando em escrever, mas isso é bem verdade. vi ontem mesmo essa notícia: http://www.clicrbs.com.br/especial/sc/jsc/19,0,2556658,Padre-diz-que-foi-seduzido-por-menina-de-13-anos.html
o padre pedófilo diz: “— A menina me assediou tanto, a menina deu tanto em cima de mim, a menina me pressionou, eu fui seduzido, eu fui bobamente levado por ela”.
É porque os homens têm na sua natureza o instinto de transar, e cabe às mulheres se resguardarem – se usa uma roupa bonita, provocante, se olha, se senta não sei como… já viu, está pedindo. eles não têm culpa, eles não podem se controlar, é assim que as coisas são – é aliás uma obrigação masculina transar com a mulher que “der mole”. as mulheres têm que saber disso e calcular seus passos de modo a não desencadear nada – se acontecer, todo o mundo já sabe quem começou…
que ódio dessa velha história, ódio. dá até nó na garganta só de escrever. afff.
Nina, fico super contente de saber que vc está avançando bem com tudo isso.
Bjs
ricardo,
confesso que algo me incomoda um pouco. quem tem um problema é a nossa sociedade, que funciona desse jeito que a nina já descreveu tão bem no seu primeiro comentário. se formos falar em indivíduos, quem precisa avançar são os agressores. toda mulher tem que lidar com o fato de ser mulher numa sociedade machista; algumas experienciam isso de maneira mais tranquila, outras nem tanto, mas é algo que temos que lidar.
E aproveitando a deixa, esclareço que não acho que a nina tenha contado nada demais aqui, em termos de ter de manter segredo; ela não só não fez nada de errado como ainda é uma história com final feliz. é uma merda que vivemos numa sociedade tão machista, mas sabemos que essas coisas são bem comuns. e se não sabemos, então precisamos percebê-lo; acontece muito, e é um problema social que precisa ser enfrentado.
beijos carinhosos.
Lu (#14), serei mais conservador, dizendo que acredito que entendi o que vc disse, hehehe!
Ter premissas em comum facilita as coisas, verdade, mas é mais profícuo quando são apenas premissas, não a totalidade do discurso. Tomando vc como exemplo, te vejo dialogar com algumas feministas que pensam diferente de ti, embora seus discursos tb tenham pontos em comum com os teus. (O seu debate sobre a pornografia é um exemplo, já que se diferencia do discurso feminista mais instituído.) E nós dois conseguimos debater assuntos em que não chegamos realmente a nos opor, posto que os atacamos a partir de ângulos distintos, não configurando antagonismos de fato. Assim eu enriqueço o meu olhar com o seu, sem chegar necessariamente a mudar de todo o que penso. Esse é um exemplo de diálogo, que não necessariamente deve almejar um discurso comum, homogêneo, mas manter o assunto vivo.
Quanto aos exemplos de diálogo que vc apontou, é verdade, eles parecem ter mais visibilidade hoje em dia. Mas há tb um tipo de intolerância que é efeito colateral da globalização, certo tipo de nacionalismos extremados, o ressurgimento de posições nazi-fascistas e outras, e esses movimentos volta e meia se apoiam na ideia de liberdade de expressão, gerando contradições complicadas. No penúltimo post que escrevi (olha a autopromoção aí geeente!, como diria o Neguinho da Beija-Flor), comentei sobre uma certa tendência, reforçada pelas próprias redes sociais virtuais, de dialogarmos apenas com os nossos semelhantes/íntimos, o que reforçaria uma semântica familialista da amizade. Efeito colateral: privilegiar “…processos de homogeneização e supressão da alteridade, podendo configurar práticas intolerantes, de desumanização e descriminação do outro” (Gomes e Silva Junior, 2008), justamente o que vejo como mais distante daquilo que vc, por exemplo, defende.
Por último, já que tenho que sair. Enquanto escrevia, vi que vc comentou (#18) sobre algo que te incomodou, e ao que parece diz respeito ao meu comentário à Nina. Que fique claro: não sou contra a fala dela, nem defendo que ela precise esconder-se como se tivesse feito algo de errado. Concordo com você, o errado não está na Nina e sim na perversão da sociedade machista, que ainda por cima incute à vítima culpas que não tem. Mas trabalho com o sofrimento humano diariamente, e aquele relato me interessou, pensando especificamente sobre o que fosse melhor para a Nina, e não para a sociedade. Se fosse um discurso sem um mínimo de trabalho pessoal — algo que ela afirmou ter feito e ainda pretender seguir fazendo —, expô-lo na internet poderia até ser útil em alguma medida, mas não tanto para a pessoa que sofreu a violência. Claro que se discutirmos isso às claras podemos combater esses absurdos mais facilmente. Só não gosto de pressões sociais que não passam de gozos com o sofrimento alheio travestidos de interesse genuíno em melhorar as coisas, e muitas vezes — não aqui, e muito menos partindo de vc — é a moral do espetáculo que prevalece.
Venho sempre aqui, e vejo como você parece lidar com facilidade com a exposição. Mas o teu discurso, mesmo aquele dos posts escritos no calor da hora, demonstra uma reflexão prévia e uma série de valores, premissas e opiniões que te deixam mais à vontade para tratar de qualquer assunto que para muitos seria mais íntimo. É tb uma posição política sua, que parece quase naturalizada, bastante espontânea. Mas há muitos aspectos que vc preserva, nem precisaria dizer. E acho que deve preservá-los, sem nenhum pingo de moralização no que digo, acredite. Releia o miolo do que escrevi para a Nina. É a defesa da “saúde” do discurso, de que ele permaneça ativo, dinâmico, vivo para ela, que esse discurso siga potente e transformador. Por isso falei em “foro adequado”, no sentido de não desperdiçar o seu potencial — no caso do assunto que a Nina trouxe, a possibilidade dela lidar melhor com os aspectos traumáticos da experiência que relatou. É a minha leitura, uma leitura de alguém que valoriza a palavra e quer que ela siga dizendo, que não se esvazie. Por isso reitero que não há nada de errado no discurso da Nina, nada mesmo. Sobretudo do ponto de vista psíquico, já que ela deu seu depoimento sobre ter trabalhado muito sobre o tema, o que me deixa feliz por ela.
Beijos, tão carinhosos quanto.
oh sim, adoro por exemplo conversar com feministas que pensam diferente de mim, é enriquecedor pelo fato de as premissas e os objetivos serem ao menos parecidos… tem um “bom senso” em comum, hah. quanto à intolerância que você diz, ela existe tão cedo existe o outro, e acho que, por acreditar que é só confrontados com o outro que podemos trabalhar essa intolerância e superá-la, que vejo uma evolução também nisso.
mas entendo que a pessoa pode escolher viver em um mundo limitado e só conversar com aqueles poucos da turminha.
quanto ao comentário #17, ah, eu não vejo em nada do que você diz uma moralização. com efeito, gozo com o sofrimento alheio e pressões por confissão pessoal passa longe de qualquer perspectiva ligada ao comentário da nina; e note que a exposição é também limitada, já que “lu” ou “nina” aqui pode ser qualquer uma. mas esse seu comentário pra mim ficou mais claro que seu último post, rs. de qualquer forma, eu só queria apontar que a mulher não tem um problema a ser trabalhado – quem o tem, e precisa “avançar”, é a sociedade, ou os estupradores etc. O foco então não é a saúde do discurso da vítima (ou quase) ou ficar feliz ou triste por ela, porque o que está em jogo e que a nina trouxe à baila é uma visão de mulher e uma relação generalizada que se estabelece com a mulher na nossa cultura, da qual todos fazemos parte e com a qual todos lidamos… no final, como o comentário do eudu (#8) simpaticamente deixou no ar, sim, o mundo pode ser uma bosta, mas a gente pode levar uma vida boa nele ;)
Olha, eu não li todos os comentários porque estou um pouco atarefado aqui, mas como eu gostria de comentar, me desculpem se alguém já tiver falado isso, ok?
Eu conheço um casal hetero, muito queridos para mim, ambos na faixa dos 30, estão pra se casar agora, essas coisas. Aí, justamente por causa do casamento, num dia desses, num bar, perguntei a eles como eles se conheceram (aliás, vou te falar que essa pergunta é deveras perigosa, já criei constrangimento por causa dela). O caso foi que eles estavam num pagode e o homem do casal avistou a menina. Ele, embiragado como um gambá, puxou a moça pelos cabelos e, em seguida, com uma gravata (o mata-leão), dominou ela e arrancou os beijos e sarradas que queria. Se pegaram naquela noite, trocaram telefones, viraram um casal e estão felizes da vida.
O impressionante é que ele me contava isso rindo, e ela igualmente, ainda dando detalhes do nível de embriaguez do indivíduo, o quão forte ele puxou o cabelo dela, essas coisas. O que eu quero dizer com isso é que, para aquela moça (e para tantas outras meninas cariocas e brasileiras, ao que me parece, absolutamente independente de classe ou região da cidade), aquilo era absolutamente natural, uma forma aceitável de abordagem, quase um ato esperado.
Fiquei meio constrangido com aquilo mas, como era de aceitação mútua, me calei e mudei o rumo do papo.
É isso, esse exrcício de poder masculino está absolutamente naturalizado nas mentes, inclusive femininas.
Pode uma coisa dessas? Nem sei o que pensar direito!
Lu, sou novo por aqui e já gosto muito do seu blog. Parabéns. Como faço pra ler os posts antigos? (Nem todos possuem link…)
Um beijo!
meu, que legal seu comentário. pois é, machismo não é privilégio de gênero, o mundo é machista, não os homens… se a mulher tá bem com isso, tá ótimo. o problema é ela se confundir e se machucar sem ter clareza do que quer, sabe? uma relação de poder assim, é uma vulnerabilidade. pode dar certo, mas pode não dar… se é comigo um tonto me dando gravata numa festa assim, leva um pontapé no saco na hora, eu faço escândalo. e depois tem quem fale que eu é que sou muito brava. mas esse é o ideal de masculinidade de muita mulher sim, como não. “um tapinha não dói”… bom, desde que desde que não doa mesmo, pode não doer à vontade!
ah é, os links, é porque eu não gosto de dar título, e no blogspot não fazia diferença se tinha título ou não, então eu deixava sem, mas depois mudei pra cá e aqui no wordpress tem isso, se não tiver título não dá link pro post. Você clica nos comentários pro post, aí ele abre o post direto na parte dos comentários, aí é só rolar pra cima a página pra ler o post…
agora eu tou tentando dar título pros posts todos por causa disso, acho meio sacal rs.
beijo beijo!
Minha namo acabou de me contar que uma menina de 17anos foi estuprada dentro da UFMG ontem. Eu li seu texto mais cedo mas não tive como comentar. Que barra essa situação que vc passou, se fosse comigo eu não sei o que faria, possivelmente teria saído correndo e gritando. rs..
Muito idiota esse político que vc citou!!! Não tem nem o que falar de uma anta dessas.
Vc sabe que adoro seu blog, seus textos e vc (rs…), estava lendo os outros comentários e li o da Nina, e concordo é realmente lindo além de ilustrar seu post. Tava com saudades das discussões dessas caixas, te prometo que não sumo mais.
mtos beijos!
vc anda sumida faz tanto tempo que já tava pensando o que tinha de errado com o blog rs.
putz, 17 anos. que foda. na minha faculdade, na época em que eu estava no meio do curso, teve uma onda de estupros. parece que tinha uns 3 agindo lá, dois homens foram presos – durante 2 ou 3 semanas, foi o horror. alunas eram estupradas direto, pegas lá por um cara com faca – e todas tinham a mesma descrição: brancas, altas, magras, cabelo comprido. Imagina, o meu medo! eu não andava nem um passo sozinha dentro do campus. uma garota chegou a ser estuprada no estacionamento ao meio dia de uma quarta feira, veja bem. o absurdo. até hoje não entendo como é possível que não tenham visto, o estacionamento é aberto, movimentado… enfim. triste.
beijo beijo, bom te ver pro aqui! :*
Não errou a mão, não! é que tou de férias só da facul, trabalho com papi. :C
Não sei se tu sabe, mas aqui na federal umas mulheres desapereceram uma época, não sei ao certo, mas umas 10 ou mais. Um maníaco e tal. tem um bom tempo. Eu fico puta quando a namo some com cel desligado, e dpois diz que esqueceu em algum canto, eu tenho um puta medo dela ficar naquela universidade sozinha.
É dos crimes que me deixa mais indignada!
que horror. o que me deixa de cabelo em pé são as histórias da vítima que vai pra polícia e é tratada *daquele* jeito. tem uma que os caras colocaram no carro e ficaram rondando no lugar onde ela tinha acabado de ser estuprada, pra verem se ela não achava o estuprador por ali – e fazendo ela contar e recontar mil vezes o que tinha acontecido e tal. sem nenhum preparo pra lidar com esse tipo de situação, imagina o estresse da garota.
é, não deixa ela ficar de celular desligado e nem ficar andando muito sozinha por lá. melhor evitar.
ah, bom trabalho aí… :***
A situação TODA é foda. tudo que esteja relacionado ao fato é desgastante pra vítima. muito foda!
Beijos!
o meu próximo post vai ser mais “filosófico”, por assim dizer, na análise de como a gente (enqto sociedade, não a gente eu e você) lida com isso – espero que você goste. acho que publico essa noite. lembra que você me contou que estupro pro direito é só penetração de pinto na xoxota? espero q essa informação esteja certa, rs.
beijo beijo :**
Tá certo sim! rs… E daquela vez que conversamos a Cynthia comentou também, olha o que ela falou lá na caixa! rs…
Achei isso aqui na net!
‘O conceito de conjunção carnal é restritivo, referindo-se apenas ao ato de penetração do pênis na vagina (immissio penis in vaginam). É estabelecido no art.213 do Código Penal, que ainda estabelece no art.214 a tipificação para ato libidinoso diverso da conjunção carnal (atentado violento ao pudor).’
http://pt.shvoong.com/books/239000-conjunção-carnal/
?!
cara, que link é esse. só tem pérolas.
“é necessário que o pênis seja introduzido além do hímen, ou que da relação resulte gravidez“.
além do hímen.
“a virgindade da nubente pode ser questionada com intenção de pedido de anulação de casamento.”
“Existem duas classes de sinais que a perícia procura identificar para constatar a ocorrência de conjunção carnal.
Sinais duvidosos:
a) dor: quando ocorre o rompimento do hímen, é natural o sentimento de dor, que pode se prolongar por algum tempo.
…
Sinais certos:
a) ruptura do hímen: obviamente, o rompimento do hímen só é um sinal certo da conjunção quando se trata de mulher virgem, não se aplicando às defloradas.”
…
olha. eu não vou nem comentar. ê laiá.
Não tem o que comentar.
né? meldels. alguns não ficaram sabendo que a idade das trevas acabou…
Lu,
gosto muito desse texto, pq é exatamente como penso. Então nem vou opinar, vou só corroborar mesmo, TODO o texto, e assinar embaixo.
Beijo
oh, que legal.
eu ando num bode de blog, tou achando o tumblr mais legal, numa fase cansada daqui, sabe? nessas horas é o maior incentivo saber quem tá lendo e pensando junto e tal.
beijo
Mas ó, não cansa daqui não que eu adoro ler o que você tem a dizer. E tanho aprendido pacas aqui!
Mais beijo
poxa, eu fico agradecida e até meio sem-graça. minhas pretensões com esse blog são só jogar conversa fora, pensar sobre as coisas que me interessam com um feedback, sabe.
depois da janta eu vou ver o próximo post, pretendo continuar esse assunto, que quero publicar essa noite ainda. aí você me diz o que você pensa ;)
beijos!
(me metendo na conversa de vcs, que é isso de se cansar daqui? ei, não pode. E a gente como é que fica. Cadê o post que vc disse que ia fazer. Tou aqui esperando :PPPPPPP)
feito! publicado já.
calma, não me dá bronca ;)
o seu pedido é uma ordem!
:*
Olá, moça! Não li todos os comentários, então pode ser que já tenham falado o que eu vou escrever.
Sobre a grande confusão do xaveco X agressão e sexo X estupro, creio, por experiência própria, que mulheres que menos se encaixam nesse esquema machista correm mais os riscos dessa confusão. Me refiro à mulheres que não “dão”, que se divertem e sentem-se livres pra sentir prazer da forma que lhe interessarem, que são donas da sua sexualidade e não se preocupam com convenções. Se curtirem práticas sexuais não convencionais (menage, swing, suruba ou o simples bi-curioso) são mais “vulneráveis” ainda.
Porque alguns homens simplesmente não conseguem conceber essa idéia de liberdade sexual feminina, que se mulher gosta de putaria é safada, puta, bitch e quer sexo o tempo todo, com quem quer que seja, e que se beija outra mulher é pra atiçar a fantasia masculina.
Cansei de sair com namorada/ficante e ser abordada em plena pista após beijar, com vários retardados babando em volta querendo passar a mão e pedindo pra entrar no meio.
De homem que após me beijar, achou que podia me trancar no banheiro durante uma festa achando que eu treparia com ele simplesmente pq sabia que eu ja tinha feito isso anteriormente (com outro cara, em outra festa, anyway). Ou de me segurar e tentar beijar à força quando percebia que eu já estava bêbada.
No bar, saindo sozinha pra beber SOZINHA ter que ouvir babacas querendo me convencer que eu precisava de companhia, pq afinal, “o que fazia uma menina beber sozinha no bar, senão procurando uma companhia?” (sim, eu TIVE que ouvir isso…)
Até no swing, quantas vezes me controlo pra não arrumar briga com os brutamontes que se acham a última trakinas do pacote e já chegam puxando pelo braço (versão moderna do golpe de clava + arrastar pelo cabelo).
Por incrível que pareça, este pensamento de que sexo por si só não é violento é muito comum entre homens de todas as idades, que pensam q por mais que contrarie e negue, mulher gosta de sexo e que se recusa é pra fazer charme ou manter a reputação. Inclusive namoradas e esposas. Que se eu não bato ou ameaço, tá tudo bem.
(tem coisa mais agressiva que um homem falar de uma mulher: ‘seu problema é falta de pica?’ …e é super comum. coisa de gente que no fundo acha que a única coisa que mulher contrariada quer e precisa de verdade é de uma bela fodida. Independente da forma como isso acontece.)
ai, que saco, tinha te escrito o maior comentário e perdeu quando eu enviei!! ódio.
bom, eu tinha dito o seguinte: essas situações que você falou é muito machismo. Quanto menos machista o ambiente, menos elas tendem a acontecer – acho que uma mulher mais ativa sexualmente pode mesmo se confrontar mais com essa lógica, mas acho que mulheres mais… que “dão”, como você disse, podem até estar mais vulneráveis, por participarem mais dela, serem mais submissas.
eu sempre fui bem forte e bem dona dos meus desejos, e nunca tive problema com isso – claro que vivo num ambiente privilegiado, reconheço; mas no mesmo ambiente, vi mulheres menos certas de si passarem seus bocados por não se afirmarem de pronto, sabe? bom, claro que tudo isso é variável, depende do lugar onde se está, da relação que se tem com as pessoas, consigo mesma…
putz, que saudades de você – espero acabar logo essa fase “minha vida é meu trabalho” e voltar a ver os amigos. aí te convido pra tomarmos um sorvete ;)
beijinho!
(nossa, dá raiva mesmo qdo isso acontece)
Então, quando eu digo “vulnerável” não quero dizer vitimizada ou submissa ou sujeita aos danos ocasionados por atitudes machistas. Digo que essas atitudes acabam sendo consideradas justificáveis e porque não, aceitáveis pela sociedade, em geral.
Generalizando, quis dizer que se uma mulher tem um comportamento sexual liberal isso se torna a deixa para ser tratada como se consentisse com atitudes machistas:
-porque se está de legging é porque quer chamar a atenção e despertar o desejo do homem, que não tem lá tanta culpa de ter estuprado, mesmo que ela tenha acabado de sair da aula de dança;
-porque se está no swing é porque quer dar pra qualquer um;
-porque se beija mulher é porque é pervertida e quer atiçar o desejo masculino;
-porque se deu pra fulano, sicrano e beltrano, qual o problema em dar pra mim também?;
etc etc etc, vira a desculpa, sabe?
E quando a mulher recusa essas atitudes machistas ela vai contra o consenso geral de que é fácil e está ali para aquilo. (lembra a discussão do real significado de bitch? então…)
Por mais que ela se livre dessa situação e saia sem sequelas, inevitavelmente será relacionada à facilitação de alguma forma.
*também to c saudade de vc… aliás, to com saudade de sair e fazer coisas fúteis, parar de ter que resolver problemas e apagar incêndios. mas qdo vc tiver sossegado, é só convidar! beijo!
ah, entendi.
eu lembrei agora que uma vez eu estava acompanhada da minha prima quando um idiota chegou conversando; conversamos um pouco e quando ele encheu o saco falando merda, eu fui embora – mas ela ficou, e ainda ficou chocada com a minha grosseria (!). tive que aguentar o paspalho que ela tratou com toda a gentileza o tempo todo, sem conseguir se livrar dele. oras, era só ir embora, eu falei pra ela. não o conhecíamos, não tínhamos nenhum motivo pra dar atenção praquele cara… ele foi super chato, insistente, era feio e bobo e foi agressivo e mesmo assim ela foi fofa o tempo todo e depois ainda deu o telefone dela – mesmo que ele ainda tenha dito: “eu prefiro o telefone da outra, mas se vc der o seu, serve também”!
eu saí de lá chocada com ela, e ela só dizia: ah, lu, eu tenho dó, coitado do cara…… !!!! coitada de mim, que teve que aturar o babacão porque ela não achava certo dar um perdido no cara mesmo depois das abobrinhas que ele falou.
oh, sair e fazer coisas fúteis. nosso programa de comprar calcinha! \o/
:*
[…] filme com essa dinâmica é Quem vai ficar com Marry?. Isso conversa com um post da Lu chamado Sexo não é estupro, xaveco não é ameaça, que fala exatamente da diferença entre sedução e intimidação. A gente vê que, nesses filmes […]
eu tava relendo um post seu e nos comentários percebi q eu mesma me referi a estupro como “sexo não-autorizado”. E lembrei desse post aqui, em que vc toca nesse assunto. Eu enho vontade de corrigir meus comments retroativamente, sabe, cada vez q eu repenso as coisas, conforme a conversa com vc vai desenrolando.
ou então: promete q nunca relê comentários antigos? :D
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acho que essa definição pode valer sem que se confunda sexo com estupro… não seja tão dura consigo mesma, hehehee. mas eu não costumo reler comentários velhos, não – a não ser de vez em quando, os absolutamente geniais que eu tenho guardados no meu email; e desses tem um montão que são seus, rs.
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