o que eu mais gosto no buck angel

por lu

a cada entrevista que vejo com o buck angel, o adoro mais ainda. ele ser o ator pornô mais delicioso que existe é questão de gosto, mas é fato que ele desafiou a tudo e é pioneiríssimo no que faz. até hoje não tem outros homens trans na pornografia, e olha que, como ele disse, a pornografia tem de tudo – inclusive muitas mulheres trans. mulher com pinto estamos acostumados a ver, mas homem de boceta? só o buck se expõe enquanto homem com boceta. adorei essa entrevista, especialmente essa primeira parte:

eu acho que homens como eu são muito noiados com as suas xoxotas, e eu tenho muito orgulho da minha xoxota, eu não tenho nenhum problema com a minha xoxota, minha xoxota é parte de mim. ela não me torna menos homem. eu estou bem com quem eu sou, e eu sou um homem, e não importa pra mim se eu tenho isso; não é isso que me faz um homem, ou que faz de qualquer outra pessoa – o pau, a boceta, não é isso, isso não faz de ninguém quem a pessoa é. particularmente, eu acho que é o que está na sua cabeça. e se você quer ter peito, ou xoxota, ou que for que você queira ter, é totalmente uma coisa sua. e eu só senti que, pra mim, eu estou muito confortável com o que está da minha cintura pra baixo, lá, e eu não precisei fazer uma cirurgia de pinto. eu acho que nós somos ensinados, na sociedade, que precisamos ter um pinto; era muito difícil, é muito difícil entender isso, pra maioria das pessoas. elas estão tão focadas no que você tem entre as pernas.

os estados unidos é tão negativo com sexo, é tão difícil pra mim trabalhar nos estados unidos, porque as pessoas têm a mente tão fechada pro que eu estou tentando mostrar e sexo é, todo o mundo faz sexo, todos nós ficamos excitados, todos queremos trepar, não importa a situação [de cada um]. e eu não posso acreditar como as pessoas têm a mente fechada por aqui. E então tem uma outra coisa, em ser transgênero, em odiar totalmente o seu corpo… muitos trans têm muito ódio dos seus corpos, e eu gostaria de mudar isso – eu acho que eu estou mudando isso. caras, garotas, estão saindo e falando, não importa, eu estou confortável com o meu corpo, e isso é tudo o que importa – eu tou cagando pro que as pessoas pensam do meu corpo.

isso não é boceta… não tem cheiro de boceta, não tem gosto de boceta; é a boceta de um homem. totalmente diferente. [ian harvie diz:] Eu tenho boceta, mas eu identifico como pau. não importa como, você sabe, você pode chamar do que for, mas é o meu pau. [buck angel:] Claro. e tudo bem – eu digo às vezes quando eu vou trepar, sabe, é o meu pau, especialmente se eu ponho uma cinta e como e é, sabe, meu pau, e a xoxota não parece feminina pra mim. não parece feminina quando eu digo, minha xoxota. não parece, parece masculino, é minha xoxota masculina. [ian harvie:] o que é importante nisso é que é a sua linguagem.

essa parte I eu vi no maravilhoso genderfork; tem no you tube a parte II e a parte III. Essa discussão, e a questão homens trans/ mulhere trans, é interessante também por deixar claro que as mulheres não são ensinadas a gostar das suas xoxotas como os homens são ensinados a gostar dos seus pintos. eu tenho pensado em como se pode mudar isso, a promover a xoxota como algo gostável e a incentivar as mulheres a amarem também as suas bocetas. e vejo a pornografia como uma chave importante nisso.

Mas o que eu mais gosto no buck angel é que, veja: os transexuais estão na parte mais vulnerável e sujeita a violência da comunidade lgbt. existe um ódio profundo voltado a eles, e são alvo recorrente de crimes violentíssimos. quem está atento e procurar (porque não são sempre divulgados, nem muito divulgados) vai perder todos os cabelos da cabeça de tanto ver notícias como essa: o cara pediu a namorada em casamento, ela negou, aí, por algum motivo, ele descobriu que ela tinha nascido homem, e a matou com tiros na boceta e nos peitos. e, como acontece nos crimes por preconceito, as pessoas identificam na vítima a provocadora do crime, como se ela tivesse merecido o crime, pedido por ele, o desencadeado; a culpa é dela, não do assassino. ele tinha o direito.

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o buck angel pode estar num meio privilegiado, mas não está imune a nada disso; ameaças e hostilidades estão no seu cotidiano, desde as mais graves e assustadoras até as mais banais, que envolvem um desprezo/ nojo/ escárnio na fala que pode até passar desapercebido pra quem sempre esteve no “lado certo” da linha, mas que é bem comunicativo pra quem sabe o que é tentar viver uma vida que é dita impossível – evidente mesmo em algumas entrevistas a ele. E, apesar de toda a força opressiva que essas agressões, maiores ou menores, têm, ele vive para além delas, sem que elas tomem as rédeas. ele construiu pra si, nele próprio, na sua própria existência, um âmbito no qual é não só possível viver como um homem trans, mas é possível uma vida boa, e boa de ser vivida, enquanto um homem trans. e ele é então esse homem gostoso, tranquilo, desenvolto, que se ama, se cuida, gosta de viver e de transar e de se relacionar e cuja existência já é uma afronta, em si e por si, a tudo o que os agressores dizem e pregam e impõem. e nisso, ele nos dá uma lição de como lidar com o preconceito, e do que pode ser feito contra ele, numa esfera pessoalíssima, e no entanto bastante efusiva. porque é uma existência absolutamente pacífica, e ainda assim desafiadora, numa sociedade que diz que aquilo não pode existir, que você não pode existir assim e ser amado, ser digno de amor humano – e o fato de ele existir e se amar e se colocar naturalmente como tão digno de respeito quanto qualquer pessoa é a coisa mais sexy e sublime e inspiradora de amor que eu posso pensar.

por isso, ver o buck angel falando me emociona; ele nos ensina – a todos, e especialmente aos que se veem alvo de algum preconceito, no lado “errado” (bonito é ser assim, e você é assado) que é possível, é viável, viver bem assim, do jeito que se é e que a sociedade insiste em dizer que não. que essas falas que nos colocam como o “errado” podem ser elas mesmas problematizadas e questionadas.