#lingerieday, o dia em que eu virei um bife

por lu

fiquei sabendo do #lingerieday no twitter pelas tuitadas da cynthia linkando um post raivoso com comentários idem: o post xingava um grupo de “cérebros masculinos” de machistas punheteiros, os rapazes xingavam de volta de feia, gorda e mal-comida, e a coisa ficou nesse nível. Por pura ignorância minha, não conhecia o blog; sobre o post, a minha amiga aline já o aborda bem em seu texto lindo sobre o caso. Simultaneamente, ri muito com alguns avatares que aderiram à campanha de maneira bem humorada – um com uma capa de um álbum da banda calcinha preta, outro com uma foto de uma mulher bonita dentro de uma calçola de gestante, dessas que cobre a bunda toda e vai até o peito. no msn com a aline, e já tendo em mente um post sobre o feminismo que odeia toda a manifestação sexual dos corpos femininos, quis instigar um debate e dar uma cutucada na minha amiga cynthia, que a essa altura vociferava contra mais esse mal terrível que se impunha contra as mulheres: o #lingerieday. Botei a foto do lacinho da minha calcinha como avatar, e a aline, do lacinho do sutian. e ficamos esperando e nos divertindo com a situação.

nem eu nem a aline prevíamos que a conversa ia chegar àquele ponto. eu vou dar uns passos atrás e vou mostrar a cópia que fiz – e, juro, está igualzinha ao original – da imagem que ilustrava uma cartilha feminista que recebi de presente:

abc do feminismo, zinecartilha

essa imagem explica esquematicamente como o feminismo chega a esse ponto: o consentimento só é reconhecido se consente ao que se considera válido. se a mulher consente, por exemplo, em ser atriz pornô, ela não consente realmente, ainda que ela mesma não o saiba. nas mulheres, só pode haver consentimento, desejo, ação, se for conforme as expectativas normativas pré-estabelecidas – não há problemas em acreditar, por exemplo, que a mulher consentiu em casar e morar num sobrado onde cria seus dois filhinhos de quem é mãe com todo o orgulho, mas reconhecer o consentimento da atriz pornô em trabalhar é outra história. não é um consentimento genuíno o da mulher, não importa o que ela diga, pense ou sinta, se ela consentir àquilo que eu decidi que não é bom. se ela acha que é bom, está enganada; seu consentimento só pode se dar dentro daquilo que a minha definição prévia, enviesada e particular de mulher – que eu tomo por modelo – é capaz de suportar.

segundo a perspectiva feminista que me sorri, o que o machismo faz de mais cruel é invalidar as mulheres na sua capacidade cognitiva, despi-las de sua humanidade e considerá-las como algo menos do que um sujeito. poucas vezes na minha vida eu fui absolutamente desqualificada enquanto pessoa pelo mero fato de ter nascido mulher; difícil explicar o quão brutal isso pode ser. difícil explicar o quão dolorido é ver a sua amiga insistindo em te fixar na posição de objeto, e em desqualificar imediatamente qualquer palavra ou raciocínio seu por não se adequar à verdade do fato da sua objetificação. Cynthia e túlio insistiram que eu e aline, ao trocar a foto do avatar, num passe de mágica automático e imediato saímos da condição de sujeito e ocupamos inelutavelmente a condição de objeto, e tudo o que nós mesmas sentimos, pensamos, e vivenciamos era imediatamente descartado; estávamos ali subjugadas ainda que sem perceber, apenas obedecendo cegamente ao mando masculino. de repente nossa capacidade de julgamento não valia nada, estava agora quebrada, inutilizada, e era agora cynthia e túlio quem tinham autoridade para dizer se eu estava ou não sendo “objetificada”.

é a pior coisa que o machismo faz, desvalidar a capacidade cognitiva – e portanto deliberativa – das mulheres. então eu fico perplexa com como a cynthia e o túlio me reduziram a um objeto automaticamente marcado enquanto “pedaço de carne no açougue”, esquecendo eles mesmos que esse “pedaço de carne” é uma pessoa, cuja complexidade é irredutível, que pode criar pra si formas imprevisíveis de se relacionar com seu entorno, que tem desejos, vontades e tesões que não podem ser meramente descartados por essa auto-proclamada autoridade em opressão às mulheres, por não corresponderem aos parâmetros de vivência, de subjugação e amor que essa mesma autoridade coloca sem problematizar. o que dá a cynthia e ao túlio a capacidade de enxergar a meu respeito o que eu mesma não posso ver nem sentir? por que eles têm mais autoridade que eu para identificar a “objetificação” que supostamente me tomou refém? o que dá a ela a possibilidade de diagnosticar minha sujeição/objetificação melhor que eu mesma? o simples fato de seu avatar mostrar o rosto enquanto o meu mostrava a calcinha? ou o simples fato de eu discordar deles e negar que estivesse à mando, subjugada e oprimida ali? Eu não dei a ninguém mais autoridade que eu para dizer quando sou ou não sou sujeito; eu não elegi ninguém que pudesse falar por mim e não vejo como eu estaria menos apta a raciocinar e me expressar do que qualquer outra pessoa.

Mas esse não seria o movimento próprio do machismo, que reduz as mulheres à condição de “carne” ou “bife” e lhes cala e tira a voz? não seria contra isso mesmo que o feminismo se levantaria, invés de ratificar? Ora, é apenas uma constatação, a descrição de um fato, eles disseram – mas a minha “objetificação” não é um fato, é uma questão. é isso que está sendo posto, isso que eu negava e que era desqualificada ao negar. Fato é que 2 e 2 são 4, meus amigos. E se eu sou, automaticamente e inelutavelmente, “pedaço de carne” sem raciocínio nem capacidade deliberativa sempre ali onde meu corpo se apresenta, imediatamente reduzida a um “bife” e desprovida de “alma” ou “conteúdo”, pra quê feminismo? Pra policiar as mulheres para que não caiam nessa armadilha – armadilha que alguns privilegiados veem – ao se manifestarem sexualmente, sendo assim “objetificadas”, para que assim elas ainda tenham voz? Para avisá-las de que elas estão sendo “objetificadas” quando elas cederem às pressões machistas, uma vez que isso acontece ainda que elas estejam completamente alheias e indiferentes a essa “objetificação” cuja realidade é sempre maior que a que elas creem viver, que as esmaga ainda que elas sequer o percebam?

eu não quero ressignificar o #lingerieday, eu não preciso disso; eu estabeleço minha relação com ele, comigo mesma, com meus amigos e meus conhecidos, e não é ele que a dita. o #lingerieday não tem um significado dado, universalmente posto, que nos é impresso como se fôssemos folha em branco. eu sou maior que ele.

nesse ponto, túlio e cynthia me confundiram; em momento algum eles explicaram o que é esse processo de objetificação, como ele se dá, como que eu sou despida de toda a agência e volição e viro um “bife” nessa teia. e começaram a dizer que a “objetificação”, ei, não é algo assim ruim. Eu já havia sido calada, invalidada nas minhas assertivas por ser objeto e abdicar da minha fala ao expor minha calcinha, e achava que objeto é o que não é sujeito, e agora a objetificação, apesar de ser algo que só é ruim quando acontece com as mulheres, de repente não é nada que ofenda. então por que tanto incômodo com a campanha “objetificadora”? a aline, depois da discussão, me disse: eu não sei se o problema é mostrar o corpo, mostrar o corpo porque alguém disse pra mostrar, mostrar o corpo porque um homem disse pra mostrar, mostrar o corpo enquanto nenhum homem mostrou o seu, mostrar o corpo porque não sou gorda, mostrar o corpo porque sou gorda, mostrar o corpo porque prova que eu não penso, mostrar o corpo porque prova que eu penso e aceito… algumas vezes indicavam uma coisa, outras vezes outra.

uma das razões pelas quais foucault, a quem eu sei que o túlio conhece bem, me é caro – além de ter me ensinado a não tomar interpretações por fatos, e de ter me mostrado que relações de poder têm um jogo, que não são unilaterais, que o processo de sujeição, por ser processo, tem um caráter temporal que guarda sua vulnerabilidade – é por ter mostrado que o corpo não é uma unidade monolítica posta desde sempre; que ele tem uma historicidade, como tem a própria separação entre corpo (ou forma) e alma (ou mente ou consciência ou conteúdo, como queiram). Algumas feministas já mostraram como essa separação e subsequente hierarquização – a alma é diferente, e é melhor que o corpo – tem vínculo com os gêneros, ali onde a mulher se situa no campo vil e inferior da matéria, e o campo mais nobre, elevado e digno de respeito da linguagem, da razão, é masculino. Mas eu também sou meu corpo, Túlio, não menos que esse conjunto de sinapses que agora se materializa – oh, a matéria; mas, ufa, essa pode – na produção desse post. E eu, corpo e alma, rosto e bunda, forma e conteúdo, problematizo essa separação e essa valorização de um em detrimento do outro, e reivindico minhas capacidades cognitivas e deliberativas independentemente da instância minha – inexoravelmente minha – que eu boto na porcaria do meu avatar do twitter. seja ela da minha bunda, do meu dedão do pé, do lacinho da minha calcinha ou de um bule de chá.

relações de poder não são simples: entendê-las como uma imposição simples e unilateral que emana de um foco único fixo e coerente e recai sob um oprimido passivo nem começa a dar conta do recado. e esse modo de funcionamento é também a sua fragilidade. mas aí a figura percebe sua própria feminilidade como parte de uma rede de relações de poder e passa a ler o mundo identificando as relações de poder que se estabelecem sem problematizá-las. que se dão entre “homens” e “mulheres”, opressores e oprimidas. Pra ver uma mulher de corpo exposto sempre como um “pedaço de carne”, para reduzi-las a seus corpos sempre ali onde eles se manifestam, é preciso acreditar que mulher só pode se expressar através da palavra, através de discursos articulados, porque seus corpos estão condenados a conformar-se com uma lógica que lhes oprime; é preciso acreditar que quem gosta de minissaia e decote e corpo exposto de mulher é homem, e uma mulher de decote é apenas o símbolo da supremacia do desejo masculino, ali onde todo o desejo é sempre masculino.

No mais, agradeço à simpatia dos que me apoiaram – à pedaço-de-carne-decote e à mim, pedaço-de-carne-virilha. Alguns dos nerds-machistas-punheteiros-onanistas-objetificadores-que-começaram-a-me-seguir-no-twitter-porque-eu-obedeço-a-eles, aliás, me pareceram bem bacanas. ou é apenas o efeito da objetificação falando por mim. Não sei se com o fim do #lingerieday e a troca do avatar eu recupero meu status de pessoa, se há um prazo para que eu deixe de ser “bife” ou se agora nunca mais terei voz e poder de agência de novo; em qualquer caso, só pra garantir, deixo uma foto, celebrando minha recém-adquirida condição de “Bife”:

oi, prazer, eu sou a lu bom e obedeço aos homens. quer dizer, aos homens errados. troco boquetes por…
ah, sei lá. objetos não pensam.