um balanço do #lingerieday

por lu

quem acompanhou a discussão viu os insultos e o linchamento todo que veio de pessoas contrárias ao lingerieday; eu e aline participamos, e com isso fomos chamadas por quem era contrário ao lingerieday de bife, bifão, menina-objeto, vadia, puta, ingênua, patética, burra, simplista, teimosa, tacanha, tapada, retardada, maniqueísta, mau-caráter, insegura, infantil, imatura, aprisionada, escrava; disseram que nós não pensamos, que pensamos com a bunda, que pagamos mico, que dávamos vergonha alheia, que queremos atenção a todo o custo – que nos mostramos em troca de elogios, followers, machos… -, que somos como os racistas que riem de piadas degradantes para negros, que odiamos as gordas e queremos exterminá-las, que somos traidoras do feminismo, mudamos de “lado” e compactuamos com o machismo, que estamos como na “fase de negação” dos doentes terminais, que demos um tiro no pé, que vivemos numa bolha, que estamos na quinta série; insistiram que eu e a aline éramos umas burras, com todas as variantes da palavra e etc, por não estarmos entendendo o fato de que fomos “objetificadas”: como se não concordar = não entender. colocaram palavras na minha boca, dizendo que eu falei coisas que não só não falei como falei o contrário. Também disseram que, ei, não é nada pessoal. Ninguém pediu desculpas, a não ser poucas pessoas que não tinham nos ofendido tanto e que o fizeram nas caixas de comentários daqui e da aline. E até agora tem post, comentários e twitts sendo publicados com ofensas, indiretas e tom ressentido – como se eles é que tivessem sido insultados e atacados.

eu e a aline respondemos, um a um, a todos os comentários que foram deixados. alguns só queriam ofender mais, mas muitos se dispuseram a conversar conosco; a esses, somos gratas, e respondemos e conversamos com todos. pra quem se interessa, recomendo a leitura dos comentários, meus e da aline, aqui e lá (no meu post e nos dois posts dela, onde já foi apontado um sistema de dois pesos e duas medidas que prevalece em nosso detrimento.)

esse blog não é de ontem. pra mim, blog é passatempo, não é trabalho; é pra jogar conversa fora – e eu gosto de conversar sobre assuntos variados; alguns são sérios, outros não, mas nada do que eu já publiquei aqui é contraditório ou incoerente. eu tenho posts sobre, inclusive, racismo; e não acho que esse assunto – racismo, sexismo, homofobia e preconceitos de modo geral – seja leviano, tampouco que possa ser tratado levianamente.

uma das pessoas mais machistas que conheci na vida foi minha mãe; ela é do tipo que não me deixava sair de roupa justa porque, se o fizesse, eu não ia poder dizer que a culpa era do tarado, quando fosse estuprada; eu o estaria autorizando. como se, me masculinizando, ela estivesse me protegendo – e com isso reiterando o privilégio masculino. me dói viver num mundo onde essa figura do “tarado” já tem a princípio a vantagem: ele é livre, eu não; ele tem mais voz, mais visibilidade e mais legitimidade do que eu. Eu retomo aqui um papo de posts antigos meus nos quais eu já escrevi sobre um mundo machista no qual a transa sempre beneficia o homem em detrimento da mulher, para lembrar que os comentários segundo os quais eu e aline somos “attention whores” e estamos mostrando o corpo em troca do que quer que seja, esses sim, são machistas, e me ofendem enquanto mulher, diferente do cara que disse “eu te chuparia toda”. eu não preciso estar negociando algo para transar, flertar, nem mostrar meu corpo. mas quem é machista encaixa toda a sexualidade imediatamente nesse quadro, a-mulher-dá-o-homem-ganha, e cai naquela lógica que confunde xaveco com agressão e sexo com estupro, porque no âmbito da sexualidade a mulher sempre cede, oferece, oferta, e o homem, esse se dá bem. ele existe como pessoa, exerce sua autonomia, é o lócus da ação e da iniciativa, e desfruta. As coisas, felizmente, não funcionam sempre assim – pretendê-lo, e mais que isso, cobrá-lo, é o que o sexismo faz. se eu acreditasse que as relações estão irremediavelmente fixas nisso, que esse relato da sexualidade a esgota, não haveria espaço pra mim no mundo – e a razão de ser do feminismo seria a de tentar abrir os olhos da população pra opressão que ocorre, da qual no entanto não há escape. o feminismo que me sorri acredita que podemos promover mudanças sociais e psíquicas, porque esse relato machista da sexualidade e das relações sociais não as esgota, não dá conta da realidade vivida.

No meu mundo, os conceitos têm uma origem e uma história, que é bom conhecer se você quer trabalhar com eles. o feminismo que eu estudo não trabalha com o conceito de “objetificação”, e nem os que eu critico, com os quais eu dialogo. segundo um dicionário de feminismo, esse termo é usado por um grupo pequeno e específico de feministas anti-pornografia de nova york, que o define como “o processo pelo qual um grupo poderoso estabelece e mantém dominância sobre um grupo menos poderoso, o ensinando que o grupo subordinado é menos que humano, ou como um objeto. Isso previne o grupo poderoso de identificar-se ou simpatizar com o grupo menos poderoso“. Há duas insistências que pedem mais explicações: que quem participa do lingerieday está obedecendo, a mando de quem teve a ideia de fazer o lingerieday, e que ser “objetificada” não é algo ruim. Eu não posso concordar com o primeiro, pelos motivos já expostos nos posts e comentários aqui e na aline; e o segundo, além de indicar que ainda não situamos esse conceito, deixa sem resposta a pergunta que eu já tinha posto antes: se ser “objeto” é algo não necessariamente ruim, então qual é mesmo o problema com o lingerieday? se é algo dinâmico, como fixá-lo em um evento que o desencadearia automaticamente?

eu tou achando bom ver as pessoas se posicionando, ainda que incoerentemente, porque fica mais fácil eleger nossos interlocutores, pelo menos ali onde nós podemos fazê-lo. E enquanto isso, no twitter, o lingerieday foi divertidíssimo; o clima era piadista e confraternal, e eu fui dormir leve, com as bochechas doendo de tanto rir. um beijo a todos que participaram, com seus avatares ou com comentários.