oi, prazer

por lu

uma vez um cara metido a saber das coisas, e sabia de mesmo de muito embora como todos sabemos ninguém pode saber de tudo, me disse que gente criativa não precisa de vida sexual ativa. eu acho que as pessoas podem ser supersticiosas e preconceituosas e ainda mais quando a sexualidade está no meio. isso faz tempo mas eu hoje vim escrever algo – por que não tirar a poeira do blog, né mesmo – e me distraí vendo putaria na internet ao invés, e a lembrança dessa fala me fez coceguinha. conheci gente que não tem “vida sexual ativa” mesmo que não seja proibida de transar, quer dizer, mesmo podendo ter; eu quando era mais jovem me assombrava com como alguém pode escolher o celibato, que me parece morte em vida, mas o tempo ensina a gente que as pessoas são diferentes e ok, e com o tempo conheci gente que passa longos períodos da vida assim, só, sem se relacionar com alguém romanticamente e sem ter que trepar sempre por aí. é legal ser ou estar só, mas tem seu lado desgastante pra quem precisa trepar frequentemente, porque tem um povo que tende a se envolver com quem se trepa, e a assumir que vai trepar mais vezes ou no mínimo que pode querer trepar mais vezes e pedir e insistir por isso. até em chat online o padrão é esse, sempre tem o povo querendo sacanagem, e quando eles encontram alguém que também quer sacanagem, eles querem mais sacanagem, querem sacanagem constante, o amor pela sacanagem parece que logo vira amor pela pessoa que possibilita a sacanagem e logo eles estão querendo te apresentar pra mãe. ou algo que o valha, você entendeu. o que eu estou dizendo é que pode ser desgastante você estar sempre procurando gente nova e boa pra trepar e ao mesmo tempo lidando com quem você já trepou que quer mais, que foram bons o suficiente pra trepar e você não quer que se sintam descartados, afinal de contas a ideia nunca foi descartar ninguém, apenas curtir numa boa, nem toda boa trepada tem que prometer a próxima, a camisinha já foi inventada graçasàdeus. carente e monogâmica, essa sociedade; talvez as pessoas devessem ser mais afetuosas e mais desapegadas, assim todos se amavam mais, precisariam menos de amor e confundiriam menos o amor à trepada com o amor à pessoa que a possibilita. todos gostam – ok, a maioria – de punhetar, mas trepar é sempre – ok, quase – mais gostoso; mas trepar requer curtir o corpo do outro, não só o próprio, e curtir o corpo do outro indica curtir o outro, mas nisso você se confronta com as pessoas que depois que têm seu corpo curtido se sentem de alguma forma rejeitadas se você não tem interesse maior pela sua pessoa para além dos centímetros de pele e matéria e reações que você curtiu naqueles minutos. mais afeto, pra curtirmos os outros, mais desapego, pra curtirmos sem achar que o que curtirmos é coisa que temos que manter pra não perder, pra curtirmos plenamente, sem a ameaça da perda; um curtir cheio, que não se deixa assombrar pelo seu próprio limite, sem medo.

temos um velho vício na dinâmica entre os sexos que assume certa cafajestagem nos homens que querem se desfazer de qualquer contato com uma mulher uma vez que eles tenham trepado com ela, o clichê do cara imoral que não “liga no dia seguinte”; o lado feminino do clichê é que mulher só gosta de sexo pelas oportunidades que ele traz, seja quais forem, de atenção e carinho a favores de todo o tipo. de ambos os lados há a pressuposição de que se a transa foi boa haverá o desejo da repetição. ué, trepar é bom por definição, considerando que quando a gente trepa, é porque quer, e quando se quer trepar e trepa, há de ser bom; ainda que nem toda transa vai chacoalhar a terra ou ficar gravada na nossa memória pra sempre – os cientistas que falem de hormônios e reações químicas, mas há um impacto positivo na vida, que, por mundano que seja, não pode ser sempre ligado ao bem-estar de, por assim dizer, “ter alguém ao seu lado”; a transa pode se bastar, pode ser um fim em si mesma. pra quem gosta de trepar e quer trepar, trepar é bom e pronto, ainda que outras vantagens ultrapassem a mera trepada. por motivos diferentes, tanto homens quanto mulheres podem encontrar alguma aspereza no mundo ao simplesmente curtir uma transa por uma transa, como se fosse algo normal e cotidiano, sem estar envolvidos com o/a/s participante da transa. meu coração não entende pessoas que vivem por longos períodos sem sexo, mas, nesse mundo em que vivemos, parece estar mais de acordo com a lógica das relações humanas, que só o autorizam dentro de um certo quadro específico. mas um mundo que desiste de cobrar daquele que quer trepar que, digamos, “pague o preço”, lida melhor com as pessoas que decidem viver sem fazer parte de um casal monogâmico hetero quer elas tenham vida sexual “ativa” ou não, porque se trata de manter uma atitude não prescritiva com a sexualidade. mas escrevo só pra gastar o verbo mesmo, não pra panfletar, minhas energias panfletárias eu já gastei todas. eu devia é ter perguntado pro cara o que o cu tem a ver com as cal-, digo, com a criatividade.