(às minhas amigas de facebook)

por lu

décadas atrás: eu pequena, com as primas e uma criançada, querendo brincar na pracinha em frente ao restaurante enquanto os adultos chatos bebiam e conversavam longamente. já escurecia e as tias não podiam deixar a meninada sair do alcance dos olhos. os tios jantavam e nem tomavam conhecimento do drama das crianças entediadas sonhando com a pracinha toda lá fora esperando por elas; era com a autoridade das tias que dialogávamos. uma fulana sai com a seguinte história pra encerrar a pedição das meninas: Tá vendo as árvores na pracinha? Pois tem um tarado à solta aqui que se esconde nas árvores, quando a menina passa embaixo ele pega, não pode ir que o tarado tá lá, só esperando.

contada apenas para servir ao propósito do momento – convencer a meninada a desistir de sair do restaurante, explicar porque tínhamos que ficar na mesa sendo que a pracinha tava ali tão pertinho tão convidativa -, a história do tarado sobreviveu àquela noite e entrou no imaginário das primas. também durante o dia, sempre que brincávamos naquele bairro, e depois em outros bairros também, às vezes olhávamos para as copas das árvores sérias e nos perguntávamos sobre onde estaria o tarado da árvore. Será que conseguiram prender?

pra mim, a história do tarado da árvore foi uma dentre muitas, mais ou menos elaboradas, que se somavam para inculcar o terror de estar exposta à uma ameaça anônima, dispersa, difusa, sorrateira e constante, me ensinando que eu, sendo garota, carregava sempre comigo algo de valioso que em qualquer esquina podem tentar me roubar, quebrar, violar. o que exatamente era tão valioso não era explicitado – minha dignidade, talvez, meu conforto, minha honra, minha virgindade, minha integridade corporal? – mas era algo precioso que perder seria uma tragédia, e era meu dever preservar, me preservar. então trate de calcular seus passos e prestar atenção.  A gente quando é criança vai aprendendo o mundo e seus preconceitos de muitos jeitos e de jeitos muito particulares, e eu aprendi que o que era tão valioso em mim, que perder seria cair do abismo, era de alguma forma o motivo pelo qual a família, os adultos, me amavam; ser obediente e boazinha significava também “me preservar”.

eu precisei crescer muito, por assim dizer, pra entender que esse mundo no qual os meninos brincam livres enquanto as meninas têm sua liberdade cerceada em nome de uma violência potencial anônima e múltipla, esse é um mundo machista, e não é o único possível pra mim. e que de certa forma cabe a mim sim me proteger, criando e mantendo outras expectativas de realidade, a fim de viver plenamente. que essa ameaça é já uma violência opressora, uma peça-chave nessa engrenagem de constrangimento e coerção que restringe a vida que eu chamo aqui de machismo. essa é a semente de uma vida regada pelo medo, da vida nas bordas da vida.

o que me salvou foi o feminismo. mas não esse feminismo que se populariza pelas mídias, imediato e intuitivo; um mais problemático, crítico desse feminismo instantâneo – um que busca elaborar o problema e entendê-lo racional, articuladamente. não estou, com isso, desmerecendo outras formas de entendimento, outras formas de linguagem. o que quero dizer enfim é que, se você, pra ser feminista, precisa convencer as mulheres de que elas estão em perigo, seu feminismo fracassou na largada. você não vai ser parte da solução, mas pode ser parte do problema.

tem outros problemas no discurso vitimizante, além dessa criação-perpetuação da vitimização. legitimar a pessoa que sofre violência e atentar à violência que ela sofre não só não implica em legitimar seu lugar de vítima, como implica o contrário disso – em desprender a sua pessoalidade do âmbito da vítima, em justamente reconhecer que ela se define como pessoa para além da violência que ela sofre. o curioso é que é um conceito até que simples e bem difundido, o de que a opressão imprime à minoria uma certa invisibilidade; mas algo que não se vê com a mesma frequência ou clareza é que isso implica que, quando o discurso feminista fala, não pode falar em nome da mulher. ninguém pode falar em nome de ninguém mais – não se o que se quer é pensar a discriminação. além de ser autoritário e possivelmente falso, isso sufoca a voz do outro – ou seja; é justamente o que queremos combater. não me venha falar por mim, tampouco me venha falar aos homens enquanto mulher. grata.

é que uns dias atrás foi o dia internacional da violência contra as mulheres e, como há de ser, choveu pataquada nas redes sociais sobre essas “pobre coitadas” que têm ao lado um desses “monstros” sem coração. eu espero de qualquer um que se declare feminista que entenda que o buraco é mais embaixo, e espero dos meus amigos de rede social, todos eles, que pensem duas vezes antes de compartilhar bosta que meu coração é fraco, gente, e esse é meu calcanhar de aquiles.

fico puta com essas coisas.